sábado, 5 de novembro de 2011

Nosso cérebro chegou ao limite, diz neurocientista.

A Revista Galileu publicou uma matéria bem polêmica, na qual um renomado neurocientista defende que a capacidade evolutiva do cérebro humano chegou ao seu limite. A questão principal estaria no dilema entre evoluirmos mais o nosso cérebro e a nossa capacidade cognitiva ou preservarmos o funcionamento dos outros órgãos corporais.
Discusões a parte, sabemos que a capacidade de raciocício do cérebro humano, essa máquina altamente desenvolvida ao longo de milhares de anos, é extremamente fascinante. Segue abaixo a matéria publicada.




Nossa espécie passou os últimos 150 mil anos melhorando o cérebro. Foi o que garantiu que fossem criadas as pirâmides, ônibus espaciais, tratados de filosofia, computadores. Mas uma pesquisa recém-publicada por uma equipe da Universidade de Cambridge, com base em um mapeamento de centenas de pessoas, reforçou uma tese recorrente na neurociência: a de que nossa inteligência chegou a seu limite. Os estudos ainda devem prosseguir para confirmá-la, mas este trabalho, somado aos que vinham sendo realizados nos últimos anos, não deixa margem para muitas dúvidas.

Se evoluísse ainda mais, nosso sistema nervoso passaria a consumir energia e oxigênio a tal ponto que atrapalharia o funcionamento do resto do organismo — e isso nunca vai acontecer porque nos inviabilizaria como espécie. Depois de uma longa evolução, que faz de nós mais inteligentes do que os seres humanos da Antiguidade, nos últimos 200 anos chegamos ao limite da inteligência.

O cérebro humano tem a capacidade de nos tornar altamente adaptáveis a situações e ambientes. Ele nos ajuda a sobreviver em lugares hostis e de mudanças bruscas. Também nos permite fazer planos, resolver problemas e pensar estrategicamente. Para dar conta dessas tarefas, ele mantém uma vasta rede de neurônios. A sintonia deste sistema é mantida por centenas de células, que ficam localizadas em diferentes lugares do cérebro e oscilam de forma sincronizada. Ao longo do tempo, essas células responsáveis pela sincronia da rede cerebral foram surgindo em nódulos intermediários, que garantem que a informação chegue a todos os pontos do corpo sem distorções. Tal evolução nos permitiu aumentar a velocidade das conexões, pensar mais rápido ou lembrar mais coisas sem fazer crescer demais o consumo energético. Mas até isso tem um limite.

Depois de uma tarefa escolar muito difícil, uma leitura árdua ou um jogo de memória complexo, você não se sente cansado? É natural. Este processo cerebral demanda uma grande quantidade de energia e oxigênio. É impossível otimizá-lo a ponto de zerar o consumo energético. E existe um nível em que não é mais funcional alimentar o cérebro. Afinal, o organismo também precisa realizar outras tarefas vitais, como digestão e respiração.

Existe no nosso corpo uma espécie de balança comercial de energia. O custo mínimo não nos deixa muito inteligentes, enquanto que o investimento máximo custa caro demais para o organismo. Em nossa história evolutiva, caminhamos para melhorar nossas conexões cerebrais, mas há um momento em que o custo para manter o sistema nervoso causaria uma pane nos outros órgãos.

Ou seja: chegamos a um ponto em que ser ainda mais esperto significa ter um organismo que vai funcionar mal. A evolução de nossa inteligência tinha um preço que, até agora, valia a pena pagar. Essa situação mudou. Vamos nos manter no nível atual, que já é bastante alto.

* Ed Bullmore é neurocientista e professor de psiquiatria da Universidade de Cambridge, Inglaterra.


Fonte: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI269886-17774,00-NOSSO+CEREBRO+CHEGOU+AO+LIMITE+DIZ+NEUROCIENTISTA.html

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Traumas da perda.

Foi lançado um interessante artigo na revista Mente e Cérebro, que fala acerca dos (des)ajustes do cérebro e, principalmente, do comportamento dos pais que sofreram a perda de um filho ainda na gestação. Muitas vezes, esses pais cursam com sintomas de ansiedade, depressão ou procuram refúgio no uso de drogas lícitas ou ilícitas.
Seja qual for o caminho tomado, o trauma gerado pode muitas vezes, significar uma mudança radical na vida conjugal e na forma de lidar com os outros filhos, já nascidos ou não. O artigo se propõe a demonstrar a importância do acompanhamento desses pais.


No Brasil, em média, duas em cada dez crianças morrem ainda na barriga da mãe, em decorrência de aborto espontâneo. Mães e pais que passam por essa situação sofrem durante longo tempo, pois embora não tenham tomado seus bebês nos braços, desenvolvem com eles uma relação íntima de afeto.



“Estou na cozinha e de repente começo a sangrar. No entanto, hoje ao meio-dia ainda estava tudo bem no ultrassom. Tudo acontece muito rápido: meu marido chama a ambulância e vejo a poça de sangue embaixo de mim; tenho um pressentimento terrível. Acho que meu filho não vive mais. Fico desesperada. Quando os enfermeiros me deitam na maca, fico calma – tudo parece irreal. No hospital, todos que me atendem parecem agitados. Um médico me examina com um instrumento de metal gelado. A ultrassonografia confirma o que eu já sabia, mas insistia em não acreditar: meu bebê está morto. É preciso fazer logo uma curetagem. O médico diz que eu ainda poderei ter muitos filhos. Mas meu bebê está morto. Ele não pode ser substituído por nada nem por ninguém. Nunca.” (Depoimento de paciente do Hospital da Universidade de Münster que sofreu um aborto.)

A morte do filho antes do nascimento joga a maioria das mães e pais em uma profunda crise. Se os médicos supunham há 30 anos que o melhor para os casais seria esquecer o evento o mais rápido possível, hoje – graças à psicologia e à psicanálise – se sabe que as reações à perda de um filho antes do nascimento só se diferenciam fracamente das que ocorrem em outros casos de luto. No entanto, sua magnitude raras vezes é percebida por aqueles que rodeiam as pessoas que passam por essa situação e, não raro, os homens encontram ainda menos espaço para viver sua tristeza. Dependendo do estudo, entre 10% e 30% das crianças morrem ainda antes de nascer. No fundo, isso pode ocorrer em qualquer período de uma gravidez. Até a 16a semana, os médicos falam em aborto precoce, depois; em aborto tardio. Mais da metade de todos os abortos espontâneos ocorre, no entanto, antes do terceiro mês de gravidez. E somente os bebês com peso corporal de 500 gramas que morrem antes ou durante o parto são considerados “crianças nascidas mortas”. Embriões menores não têm registro civil nem direito a enterro.

O estresse psicológico sofrido pelos pais pelo abortamento ou pelo nascimento de um bebê morto já foi muitas vezes estudado cientificamente. Nesses trabalhos, as mulheres geralmente eram focadas de maneira mais intensa que os homens. Em 2005, nosso grupo de trabalho do Hospital da Universidade de Münster estudou os dados de pacientes mulheres que haviam perdido um filho antes do nascimento entre 1995 e 1999. Descobrimos que dois terços delas ainda experimentavam um grande trauma, mesmo quando já haviam se passado dois a sete anos da perda. A intensidade de sua dor pouco se diferenciava dos sentimentos de perda em mulheres cujo abortamento ocorrera havia apenas 14 dias.



Esses resultados não sugerem processos de luto excepcionais ou mesmo patológicos, mas mostram, isso sim, que antes do nascimento já existe uma relação intensa entre mãe e filho. Em comparação com mães de bebês saudáveis, as mulheres que perdem o filho no último trimestre de gravidez enfrentam alto risco de sofrer de depressão. Isso foi comprovado em 2003 por Jesse Cougle e seus colegas da Universidade do Texas, em Austin. Em 2007, nossa equipe finalizou um estudo próprio sobre as sequelas psicológicas de pacientes cuja gravidez teve de ser interrompida por motivos médicos já na fase tardia: quase 17% das mulheres ainda sofriam 14 meses depois de depressão ou ansiedade.

Outro risco frequentemente subestimado diz respeito ao próximo filho gerado após um aborto. Em geral a perda não influencia a probabilidade de a mulher dar à luz um bebê saudável. Mas a gravidez fracassada pode influenciar a ligação da mãe com a criança gestada em seguida, conforme descobriram em 2001 pesquisadores do Departamento de Psiquiatria do Hospital Escola St.George, em Londres. Assim, por medo de uma nova perda, quando engravidam outra vez muitas mulheres assumem um relacionamento menos intenso com os filhos que estão gestando. Em comparação com crianças de um grupo de controle, esses bebês apresentam por volta dos 12 meses, em alguns casos, apatia e, em outros, irritação e ansiedade, o que reflete a fragilidade da ligação afetiva com a mãe, podendo surgir mais tarde problemas de autoestima e distúrbios comportamentais.

À primeira vista, poderíamos pensar que os pais desenvolvem uma relação menos estreita com seus filhos que não chegaram a nascer, em comparação às mães. Estudos recentes, porém, contrariam essa suposição. Os psicólogos britânicos Martin Johnson e John Puddifoot observaram, por exemplo, que homens que viram uma imagem de ultrassom de seus filhos e ouviram seu coraçãozinho bater sofriam mais intensamente com a perda do que aqueles que não tinham essas experiências – e lembranças. Aparentemente, a existência de exames médicos mais sofisticados estimula a ligação entre pai e filho.
Já em 1995 psicólogos da Universidade de Rochester, no estado americano de Nova York, tentaram descobrir se mães e pais apresentam diferentes sintomas quando não conseguem lidar com a morte de seu bebê. Eles acompanharam 194 mulheres e 143 homens nessa situação e constataram que elas sofriam mais frequentemente de depressão e medos, enquanto mais da metade deles recorria ao álcool.



SOFRIMENTO DIVIDIDO
Um estudo de 2003 coordenado por Kirsten Swanson, da Universidade de Washington, em Seattle, corrobora a conclusão de que, dependendo do sexo, as pessoas lidam de forma diferente com sua dor. Segundo os autores, as mulheres frequentemente têm necessidade de falar sobre a perda; já os homens tendem a se voltar para o trabalho ou a buscar distração em outras atividades.

Swanson investigou também se essas estratégias de superação específicas de cada gênero sobrecarregavam o relacionamento do casal. De fato, muitas vezes ocorrem mal-entendidos, como se surgisse (ou se tornasse mais acentuada) a dificuldade de comunicação. Por exemplo, as mulheres tendem a interpretar o mutismo e o retraimento do parceiro como egoísmo e falta de empatia. Homens, por sua vez, sentem-se muitas vezes indefesos diante da tristeza intensa e explícita de suas parceiras. Para não sobrecarregá-las ainda mais, eles controlam as próprias emoções e evitam falar abertamente sobre elas.

Mas há também evidências de que mães e pais se ajudam intuitivamente quando perdem um bebê. Pesquisadores coordenados por Marijke Korenromp, do Centro Médico Universitário, em Utrecht, na Holanda, analisaram inúmeros estudos sobre o comportamento de pais em luto após a interrupção da gravidez por motivos médicos. Surpreendentemente, os parceiros raramente mostraram fases de tristeza intensa concomitantes. Os psicólogos holandeses supõem que os pais se alternavam de forma inconscientemente na superação da dor, para que aquele que estivesse especialmente sobrecarregado em um momento fosse apoiado e aliviado de suas tarefas rotineiras nesse período.

Até agora, porém, desenvolveram- se apenas poucos conceitos de tratamento específicos para pais após perdas durante a gravidez, e sua eficácia não foi investigada a fundo. Mas todas as abordagens têm em comum o fato de estimular a comunicação franca entre os membros da família. O principal objetivo da terapia consiste, inicialmente, em fazer com que os afetados tenham consciência de sua perda e formulem seu sofrimento espiritual em palavras para que, por fim, possam se despedir do bebê morto, bem como das expectativas, das esperanças e dos desejos associados a ele. De qualquer forma, é fundamental que, independentemente do fato de serem homens ou mulheres, pessoas que passaram pela experiência dolorosa de um aborto (muitas vezes até mesmo de um aborto provocado, que pode deixar sequelas emocionais e culpa) possam ter um espaço de acolhimento. E encontrar um ambiente propício e seguro para viver esse luto, falar sobre sentimentos e frustrações. Ou apenas para chorar.




PSICOTERAPIA PELA INTERNET

Com base em nossa experiência clínica de acompanhamento e tratamento de pais após a perda de um filho, desenvolvemos em 2008 um programa preventivo que inclui cinco sessões de terapia. Nos encontros são abordados temas importantes como a retrospecção à época da gravidez e do nascimento, a despedida do filho, a relação do casal e a importância do ambiente social. Para ajudarmos também os pais que moram longe ou não podem participar de uma terapia presencial, buscamos uma alternativa para o atendimento costumeiro, cara a cara. Foi assim que desenvolvemos um conceito de tratamento pela internet para pais que haviam perdido um filho durante a gravidez ou pouco após o nascimento: o projeto será patrocinado durante três anos pelo Ministério da Família, Mulheres, Idosos e Adolescentes da Alemanha. Portanto, não há custos para os pacientes. Diferentemente dos tratamentos tradicionais, a terapia on-line permite a comunicação exclusivamente por escrito. Obviamente, nessa situação a interação não verbal entre paciente e terapeuta – por meio da postura corporal, o contato visual ou a voz – não ocorre no caso desse método. No entanto, essas informações emocionais importantes podem e devem ser destacadas pelo uso de diversas fontes ou variações do pano de fundo na tela. Outra característica dessa forma de terapia são as pausas na comunicação, que devem ser olhadas com atenção pelo profissional. Uma vantagem: o paciente pode refletir com calma sobre as perguntas do terapeuta antes de respondê-las. Costumamos argumentar que, nesse momento, as inibições que talvez impeçam a pessoa de comunicar os pensamentos dolorosos ou que ela considere vergonhosos são eliminadas. Reconhecemos, no entanto, que demora pode também levar a mal-entendidos difíceis de ser percebidos na comunicação escrita. Por isso, o terapeuta se orienta pela forma de expressão e estilo do paciente – o que, de fato, nem sempre é fácil. Apesar das dificuldades (e críticas) a respeito da psicoterapia pela internet, a proposta é justamente avaliar se esse tipo de intervenção é eficaz.

Causas e sintomas

Em muitos casos, alterações genéticas são responsáveis pela morte do feto. Nesses casos, o bebê não estaria apto a sobreviver e por isso é expelido pelo corpo da mãe. Às vezes, a falta do hormônio progesterona pode provocar o aborto. Nesse caso, o óvulo não se aninha na membrana mucosa do útero. Infecções e doenças maternas também facilitam a morte da criança durante a gestação. Mulheres grávidas de múltiplos têm um alto risco de perder o bebê. Os indícios de um possível aborto vão desde sangramentos vaginais até fortes dores no abdômen e costas. Se esses sintomas surgirem, grávidas devem procurar um médico imediatamente. Muitas vezes, o aborto pode ser evitado com medicamentos ou intervenção cirúrgica.

Fonte: http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/traumas_da_perda.html

Alucinógenos ajudam a controlar distúrbios.



Psilocibina, substância retirada de cogumelos, traz bons resultados em tratamentos para reduzir ansiedade e ataques de enxaqueca; pesquisadores investigam agora a capacidade do componente de aliviar sintomas característicos do transtorno obsessivo-compulsivo(TOC).

Flashback:um homem de meia-idade entra em uma sala com móveis confortáveis, senta-se em um sofá e recebe um comprimido. Depois de ingerir a pílula, um médico coloca uma venda sobre seus olhos, fones em seus ouvidos e o convida a deitar-se. Ele começa a ouvir uma suave música clássica e, durante as oito horas seguintes, o homem que se autodefine religioso embarca em uma jornada interna, desencadeada pela droga psilocibina, o ingrediente ativo dos cogumelos alucinógenos.

O experimento faz parte de uma pesquisa com 36 participantes destinada a explorar os efeitos farmacológicos e psicológicos da psilocibina, comparando-os aos de um controle ativo, o cloridrato de metilfenidato (conhecido como ritalina). Vinte e duas pessoas afirmaram ter tido experiências místicas com a psilocibina e 24 as consideraram as mais significativas de sua vida, equivalentes ao nascimento do primeiro filho ou à morte de um dos pais. Durante a fase de acompanhamento, “eles continuaram a relatar mudanças positivas na atitude e no comportamento”, disse o coordenador dos estudos Roland Griffiths, da Universidade Johns Hopkins. “Para eles a experiência continuou a ser significativa tanto no aspecto pessoal quanto no espiritual.”

Além de Griffiths, outros pesquisadores têm se dedicado a investigar os efeitos psicológicos e fisiológicos de componentes psicodélicos que mimetizam o neurotransmissor serotonina. Charles Grob, do Centro Médico Harbor-Ucla (Universidade da Califórnia em Los Angeles), por exemplo, analisa os efeitos da psilocibina na redução da ansiedade em pacientes terminais de câncer. Francisco Moreno, da Universidade do Arizona, pesquisa sua capacidade de aliviar os sintomas que caracterizam o distúrbio obsessivo-compulsivo e, em estudos com outros alucinógenos, tais como o MDMA, mais conhecido como ecstasy, começou a explorar seus possíveis benefícios.



Os estudos com essas drogas ressurgiram em 1990, quando o Food and Drug Administration (FDA), órgão americano que regula o uso de alimentos e medicamentos, encerrou uma moratória de duas décadas, autorizando pesquisas sobre os efeitos em seres humanos do DMT (dimetiltriptamina), poderoso alucinógeno de ação rápida e duração curta do efeito, anos depois de instituições respeitáveis terem abrigado pesquisas questionáveis. Timothy Leary, por exemplo, ganhou popularidade internacional em razão de suas experiências com LSD feitas enquanto era professor da Universidade Harvard. Por isso, há quem tema a repetição desses fatos. Outro caso é o do ecstasy, que se tornou popular depois que certos psiquiatras o utilizaram em um contexto terapêutico incomum.

Como consequência, obter verbas para essas pesquisas continua um enorme desafio. Embora o Instituto Nacional Contra o Abuso de Drogas (Nida) tenha financiado o estudo com a psilocibina, a instituição não está interessada nos potenciais usos terapêuticos. “Estamos abertos ao estudo de todas as classes de drogas ilícitas que viciam”, declara o pesquisador David Shurtleff, diretor da Divisão de Pesquisas Básicas de Neurociência Comportamental do Nida. “Mas estamos longe de pensar em tratamentos com esses compostos. Ainda há muitas questões sobre como eles interagem com o indivíduo.”

Por serem ilícitas, a psilocibina e substâncias psicodélicas semelhantes podem sofrer a mesma resistência à indicação terapêutica que a maconha teve nos últimos anos. Porém, mesmo observadores externos à pequena comunidade de pesquisadores dos alucinógenos notam uma diferença qualitativa entre esses dois casos: “A grande quantidade de estudos científicos em relação à maconha foi exatamente o erro nos trabalhos com psicodélicos no passado. Não havia estudos bons e controlados”, diz Herbert Kleber, que dirige a divisão de abuso de substâncias da Universidade Colúmbia. “Havia a clara impressão de que muito dinheiro e esforço haviam sido empregados na legitimação da droga para uso recreativo.”

Pesquisadores que trabalham com alucinógenos estão se esforçando para oferecer um bom e controlado estudo sobre seus efeitos no corpo humano. “Os animais podem receber qualquer droga que vicia o ser humano. Mas eles não se autoinjetam psilocibina, LSD ou outra droga psicodélica”, explica Charles Schuster, da Universidade de Waine State e ex-diretor do Nida. “É um fenômeno exclusivamente humano”, o que torna tal pesquisa carregada de perigos. O MDMA mostrou alguns danos nos estudos com animais, e a psilocibina pode desencadear esquizofrenia e outras doenças mentais em pessoas sensíveis. “Apesar de toda nossa preparação, 30% dos voluntários tiveram uma experiência significativa de medo, algumas delas acompanhadas por paranoia”, observa Griffiths. “É fácil notar como isso pode agravar comportamentos perigosos.”

Mas em local apropriado, com supervisão adequada, as drogas psicodélicas como a psilocibina demonstram ser eficientes no tratamento de angústias em pacientes terminais ou mesmo em viciados em drogas, oferecendo o tipo de experiência espiritual da qual programas como os Alcoólicos Anônimos dependem. A psilocibina já demonstrou algum potencial terapêutico em outras áreas da saúde. Pesquisadores do Hospital McLean de Belmont, Massachusetts, descobriram que esse composto parece bloquear os ataques de enxaqueca. Além disso, o tranquilizante alucinógeno quetamina provou ser rápido e eficiente no alívio da depressão em pacientes que não responderam a outros tratamentos, de acordo com estudo recente do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos.

Fonte: http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/alucinogenos_ajudam_a_controlar_disturbios.html

Inteligência Verbal e Não-Verbal muda no Cérebro de Adolescentes.



A Revista Nature publicou um artigo no qual comenta acerca das mudanças que ocorrem no processo de linguagem verbal e não-verbal do cérebro de adoelescentes. Abaixo segue a tradução da matéria. Para quem preferir conferir a matéria em inglês o link é este.

Quociente de inteligência (QI) é uma medida padronizada da capacidade intelectual humana que leva em conta uma ampla gama de capacidades cognitivas. QI é geralmente considerado estável ao longo da vida, com escores em um ponto do tempo usado para prever resultados educacionais e perspectivas de emprego anosmais tarde. A neuroimagem nos permite testar se flutuações inesperadas longitudinais no QI medido estão relacionados com o desenvolvimento do cérebro. Aqui nós mostramos que o QI verbal e não-verbal pode subir ou cair na adolescência, com estas mudanças no desempenho validados pela sua estreita correlação com as mudanças na estrutura cerebral local. Uma combinação de imagens estruturais e funcionais mostrou que o QI verbal mudou com a massa cinzenta em uma região que foi ativado por voz, enquanto o QI não-verbal mudou com a massa cinzenta em uma região que foi ativado por movimentos dos dedos. Usando avaliações longitudinais dos mesmos indivíduos, temos evitado a muitas fontes de variação na estrutura do cérebro que confundem estudos transversais. Isso nos permitiu dissociar marcadores neurais para os dois tipos de QI e de mostrar que, em geral, habilidades verbais e não-verbais estão intimamente ligados às habilidades sensório-motor envolvidas na aprendizagem. Mais geralmente, nossos resultados reforçam a possibilidade de que a capacidade intelectual de um indivíduo em relação a seus pares pode aumentar ou diminuir na adolescência. Esta seria incentivar àqueles cujo potencial intelectual pode melhorar, e seria um aviso de que empreendedores iniciais não podem manter o seu potencial.

Fonte: http://www.nature.com/nature/journal/v479/n7371/full/nature10514.html

Cientista relaciona uso da internet a autismo e cria polêmica .



Uma neurocientista britânica criou polêmica entre pesquisadores ao dizer que o uso da internet está relacionado a alterações no cérebro que poderiam levar ao autismo. A professora de farmacologia na universidade de Oxford Baroness Greenfield já havia afirmado, antes, que os computadores deixam as pessoas menos atentas e menos empáticas. As informações são do jornal britânico Daily Mail.
Após a divulgação do estudo da professora Baroness, uma colega sua na universidade escreveu uma carta aberta à cientista dizendo que sua visão sobre o autismo era uma "lixo sem lógica".
De acordo com a professora Dorothy Bishop, a polêmica só surgiu porque Baroness teria feito interpretações distorcidas sobre os dados levantados na Inglaterra.
O número de casos de autismo aumentou nos últimos vinte anos, mas para Dorothy, isso não está relacionado às novas tecnologias, como disse sua colega, mas apenas ao fato de que anos atrás muitos casos de autismo passavam despercebidos.
Hoje, as técnicas de diagnóstico são melhores. Em sua defesa, Baroness disse nunca ter afirmado que o uso da internet causaria autismo, mas que as novas tecnologias causam alterações no cérebro que levam a comportamentos semelhantes ao autismo. "Estamos em perigo se criamos um ambiente para a próxima geração no qual não se valoriza o contato visual, a linguagem corporal e os abraços", disse a cientista.

Fonte: http://neurocurso.com/neuronews/1265-cientista-relaciona-uso-da-internet-a-autismo-e-cria-polemica.html

O doce amargo da infância.





Esculturas de cerâmica da mostra Momentos retratam brincadeiras, amigos imaginários e episódios de rejeição.
A disputa por um balanço no parque, a carência da presença da mãe no berço − as singelas estátuas de argila vestidas com tecidos e papéis desafiam o olhar do espectador. Em cenas de brincadeiras de ciranda, de empinar pipa, de um bebê em seu cercado, escapa uma ou outra expressão de desdém, de intriga, de expectativa frustrada. Representações de memórias comuns deixam entrever a dimensão das tragédias domésticas na mostra Momentos – Esculturas de cerâmica, em cartaz na Caixa Cultural de Salvador.


As obras da artista plástica baiana Consuelo Radclyffe remetem tanto ao delicado universo feminino da pintora portuguesa Paula Rego – que retratou coloridas cenas familiares, repletas de ambiguidade sexual –, cujas obras foram recentemente expostas na Pinacoteca, em São Paulo, bem como as incômodas esculturas de Louise Bourgeois, que revivem mistérios e dramas da infância. “Momentos são passagens de minha vida e também sonhos e pesadelos. Procurei mostrar não apenas a morbidez da rejeição, mas as simples e intensas alegrias dessa etapa, que se projeta no comportamento da vida adulta”, diz Consuelo, que vive em Londres.

Uma figura constante nas obras, retratada com naturalidade, é a do amigo imaginário, personagem que transita entre formas humanas, mitológicas e animais, como em Meus amigos ocultos (2011). “Meu irmão, quando era pequeno, por exemplo, vivia conversando sozinho; eu perguntava com quem estava falando, e ele respondia: 'Com meu amiguinho, o coelhinho'”, relembra a artista. A exposição é gratuita e fica em cartaz até 12 de novembro.

Fonte: http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/o_doce_amargo_da_infancia.html

Entrevista Rara de Sigmund Freud.



Sigismund Schlomo Freud[2] (Příbor, 6 de maio de 1856 — Londres, 23 de setembro de 1939), mais conhecido como Sigmund Freud, foi um médico neurologista judeu-austríaco, fundador da psicanálise. Freud em Freiburg na época pertencente ao Império Austríaco; atualmente a localidade é denominada Příbor, na República Tcheca.

Freud iniciou seus estudos pela utilização da hipnose como método de tratamento para pacientes com histeria. Ao observar a melhoria de pacientes de Charcot, elaborou a hipótese de que a causa da doença era psicológica, não orgânica. Essa hipótese serviu de base para seus outros conceitos, como o do inconsciente. Freud também é conhecido por suas teorias dos mecanismos de defesa, repressão psicológica e por criar a utilização clínica da psicanálise como tratamento da psicopatologia, através do diálogo entre o paciente e o psicanalista. Freud acreditava que o desejo sexual era a energia motivacional primária da vida humana, assim como suas técnicas terapêuticas. Ele abandonou o uso de hipnose em pacientes com histeria, em favor da interpretação de sonhos e da livre associação, como fontes dos desejos do inconsciente.

Suas teorias e seu tratamento com seus pacientes foram controversos na Viena do século XIX, e continuam a ser muito debatidos hoje. Suas ideias são frequentemente discutidas e analisadas como obras de literatura e cultura geral em adição ao contínuo debate ao redor delas no uso como tratamento científico e médico.

Segue abaixo uma entrevista rara concedida pelo pai da psicanálise, que além de esclarescer acerca do método de trabalho e de análise desse pesquisador da mente e do comportamento humano, também é fonte histórica muito importante.

O valor da vida (Uma entrevista rara de Freud)



Entre as preciosidades encontradas na biblioteca da Sociedade Sigmund Freud está essa entrevista. Foi concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. Deve ter sido publicada na imprensa americana da época. Acreditava-se que estivesse perdida, quando o Boletim da Sigmund Freud Haus publicou uma versão condensada, em 1976. Na verdade, o texto integral havia sido publicado no volume Psychoanalysis and the Future, número especial do "Journal of Psychology", de Nova Iorque, em 1957. É esse texto que aqui reproduzimos, provavelmente pela primeira vez em português.
TRADUÇÃO DE PAULO CÉSAR SOUZA

Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade.

Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O cenário da nossa conversa foi uma casa de verão no Semmering, uma montanha nos Alpes austríacos.


Eu havia visto o pai da psicanálise pela última vez em sua casa modesta na capital austríaca. Os poucos anos entre minha última visita e a atual multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram a sua palidez de sábio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua mente estava alerta, seu espírito firme, sua cortesia impecável como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala me perturbou.


Parece que um tumor maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde então Freud usa uma prótese, para ele uma causa de constante irritação.

- Detesto o meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção. Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que os fardos que carregamos.

Freud se recusa a admitir que o destino lhe reserva algo especial.

- Por quê - disse calmamente- deveria eu esperar um tratamento especial? A velhice, com suas agruras, chega para todos. Eu não me rebelo contra a ordem universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas - a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr-do-sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?

- O senhor teve a fama. Sua obra influi na literatura de cada país. O homem olha a vida e a si mesmo com outros olhos, por causa do senhor. E recentemente, no seu septuagésimo aniversário, o mundo se uniu para homenageá-lo - com exceção da sua própria Universidade.

- Se a Universidade de Viena me demonstrasse reconhecimento, eu ficaria embaraçado. Não há razão em aceitar a mim e a minha obra porque tenho setenta anos. Eu não atribuo importância insensata aos decimais.


A fama chega apenas quando morremos e, francamente, o que vem depois não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. Minha modéstia não é virtude.

- Não significa nada o fato de que o seu nome vai viver?



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De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu.


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- Absolutamente nada, mesmo que ele viva, o que não é certo. Estou bem mais preocupado com o destino de meus filhos. Espero que suas vidas não venham a ser difíceis. Não posso ajudá-los muito. A guerra praticamente liqüidou com minhas posses, o que havia poupado durante a vida. Mas posso me dar por satisfeito. O trabalho é minha fortuna.

Estávamos subindo e descendo uma pequena trilha no jardim da casa. Freud acariciou ternamente um arbusto que florescia.

- Estou muito mais interessado neste botão do que no que possa me acontecer depois que estiver morto.

- Então o senhor é, afinal, um profundo pessimista?

- Não, não sou. Não permito que nenhuma reflexão filosófica estrague a minha fruição das coisas simples da vida.

- Osenhor acredita na persistência da personalidade após a morte, de alguma forma que seja?

- Não penso nisso. Tudo o que vive perece. Por que deveria o homem constituir uma exceção?

- Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?

- Sinceramente não. Se a gente reconhece os motivos egoístas por trás de conduta humana, não tem o mínimo desejo de voltar à vida; movendo-se num círculo, seria ainda a mesma.


Além disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso invólucro carnal, para que serviria, sem memória? Não haveria elo entre passado e futuro.

Pelo que me toca, estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo.

- Bernard Shaw sustenta que vivemos muito pouco, disse eu. Ele acha que o homem pode prolongar a vida se assim desejar, levando sua vontade a atuar sobre as forças da evolução. Ele crê que a humanidade pode reaver a longevidade dos patriarcas.

- É possível, respondeu Freud, que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer.

Assim como amor e ódio por uma pessoa habitam em nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida conjuga o desejo de manter-se e o desejo da própria destruição.


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O impulso de vida e o impulso de morte habitam lado a lado dentro de nós. A morte é a companheira do amor. Juntos eles reagem o mundo.


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Do mesmo modo como um pequeno elástico esticado tende a assumir a forma original, assim também toda a matéria viva, consciente ou inconscientemente, busca readquirir a completa, a absoluta inércia da existência inorgânica. O impulso de vida e o impulso de morte habitam lado a lado dentro de nós.


A Morte é a companheira do Amor. Juntos eles regem o mundo. Isto é o que diz o meu livro Além do Princípio do Prazer.


No começo, a psicanálise supôs que o Amor tinha toda a importância. Agora sabemos que a Morte é igualmente importante.


Biologicamente, todo ser vivo, não importa quão intensamente a vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana, pela cessação da "febre chamada viver", anseia pelo seio de Abraão. O desejo pode ser encoberto por digressões. Não obstante, o objetivo derradeiro da vida é a sua própria extinção.



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Biologicamente, todo ser vivo anseia pelo Nirvana, pela cessação da “febre chamada viver”, anseia pelo seio de Abrão.


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- Isto, exclamei, é a filosofia da autodestruição. Ela justifica o auto-extermínio. Levaria logicamente ao suicídio universal imaginado por Eduard von Hartamann.

- A humanidade não escolhe o suicídio porque a lei do seu ser desaprova a via direta para o seu fim. A vida tem que completar o seu ciclo de existência. Em todo ser normal, a pulsão de vida é forte o bastante para contrabalançar a pulsão de morte, embora no final resulte mais forte.


Podemos entreter a fantasia de que a Morte nos vem por nossa própria vontade. Seria mais possível que pudéssemos vencer a Morte, não fosse por seu aliado dentro de nós.


Neste sentido, acrescentou Freud com um sorriso, pode ser justificado dizer que toda a morte é suicídio disfarçado.

Estava ficando frio no jardim.
Prosseguimos a conversa no gabinete.
Vi uma pilha de manuscritos sobre a mesa, com a caligrafia clara de Freud.

- Em que o senhor está trabalhando?

- Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, da psicanálise praticada por leigos. Os doutores querem tornar a análise ilegal para os não médicos. A História, essa velha plagiadora, repete-se após cada descoberta. Os doutores combatem cada nova verdade no começo. Depois procuram monopolizá-la.

- O senhor teve muito apoio dos leigos?

- Alguns dos meus melhores discípulos são leigos.

- O senhor está praticando muito a psicanálise?

- Certamente. Neste momento estou trabalhando num caso muito difícil, tentando desatar os conflitos psíquicos de um interessante novo paciente.


- Minha filha também é psicanalista, como você vê...

Nesse ponto apareceu Miss Anna Freud, acompanhada por seu paciente, um garoto de onze anos, de feições inconfundivelmente anglo-saxônicas.



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A psicanálise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que devemos evitar.


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- O senhor já analisou a si mesmo?

- Certamente. O psicanalista deve constantemente analisar a si mesmo. Analisando a nós mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os outros.


O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados sobre ele. Ele deve praticar sua arte à perfeição para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.

- Minha impressão é de que a psicanálise desperta em todos que a praticam o espírito da caridade cristã. Nada existe na vida humana que a psicanálise não possa nos fazer compreender. "Tout comprec'est tout pardonner".

- Pelo contrário! - bravejou Freud, suas feições assumindo a severidade de um profeta hebreu. Compreender tudo não é perdoar tudo. A análise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que podemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância para com o mal não é de maneira alguma um corolário do conhecimento.

Compreendi subitamente porque Freud havia litigado com os seguidores que o haviam abandonado, porque ele não perdoa a sua dissensão do caminho reto da ortodoxia psicanalítica. Seu senso do que é direito é herança dos seus ancestrais. Uma herança de que ele se orgulha como se orgulha de sua raça.

- Minha língua é o alemão. Minha cultura, minha realização é alemã. Eu me considero um intelectual alemão, até perceber o crescimento do preconceito anti-semita na Alemanha e na Áustria. Desdeentão prefiro me considerar judeu.

Fiquei algo desapontado com esta observação.


Parecia-me que o espírito de Freud deveria habitar nas alturas, além de qualquer preconceito de raça, que ele deveria ser imune a qualquer rancor pessoal. No entanto, precisamente a sua indignação, a sua honesta ira, tornava-o mais atraente como ser humano.


Aquiles seria intolerável, não fosse por seu calcanhar!

- Fico contente, Herr Professor, de que também o senhor tenha seus complexos, de que também o senhor demonstre que é um mortal!

- Nossos complexos são a fonte de nossa fraqueza; mas, com freqüência, são também a fonte de nossa força.

- Imagino, observei, quais seriam os meus complexos!

- Uma análise séria dura ao menos um ano. Pode durar mesmo dois ou três anos. Você está dedicando muitos anos de sua vida à "caça aos leões". Você procurou sempre as pessoas de destaque para a sua geração: Roosevelt, o Imperador, Hindenburg, Briand, Foch, Joffre, Georg Brandes , Gerhart Hauptamann e George Bernard Shaw...

- É parte do meu trabalho.

- Mas é também sua preferência. O grande homem é um símbolo. A sua busca é a busca do seu coração. Você está procurando o grande homem para tomar o lugar do seu pai. É parte do seu "complexo do pai".



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Fico contente, Herr Professor, de que também o senhor tenha seus complexos, de que também o senhor demonstre que é um mortal.


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Neguei veementemente a afirmação de Freud. No entanto, refletindo sobre isso, parece-me que pode haver uma verdade, ainda não suspeitada por mim, em sua sugestão casual. Pode ser o mesmo impulso que me levou a ele.

- Gostaria, observei após um momento, de poder ficar aqui o bastante para vislumbrar o meu coração através do seus olhos. Talvez, como a Medusa, eu morresse de pavor ao ver minha própria imagem! Entretanto, receio ser muito informando sobre a psicanálise. Eu freqüentemente anteciparia, ou tentaria antecipar suas intenções.

- A inteligência num paciente não é um empecilho. Pelo contrário, às vezes facilita o trabalho.

Neste ponto o mestre da psicanálise diverge de muitos dos seus seguidores,



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Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana, porque são muito mais simples.


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que não gostam de excessiva segurança do paciente sob o seu escrutínio.

- Ás vezes imagino, questionei, se não seríamos mais felizes se soubéssemos menos dos processos que dão forma a nossos pensamentos e emoções. A psicanálise rouba a vida do seu último encanto, ao relacionar cada sentimento ao seu original grupo de complexos. Não nos tornamos mais alegres descobrindo que nós todos abrigamos o criminoso e o animal.

- Que objeção pode haver contra os animais? Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana.

- Por que?

- Porque são tão mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de adaptar-se a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico.


O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura.


Muito mais agradáveis são as emoções simples e diretas de um cão, ao balançar a cauda, ou ao latir expressando seu desprazer. As emoções do cão, acrescentou Freud pensativamente, lembram-nos os heróis da Antigüidade. Talvez seja essa a razão por que inconscientemente damos aos nossos cães nomes de heróis antigos como Aquiles e Heitor.

- Meu cachorro, disse eu, é um Doberman Pinscher chamado Ajax.

Freud sorriu.

- Fico contente de que não possa ler. Ele certamente seria um membro menos querido da casa, se pudesse latir sua opinião sobre os traumas psíquicos e o complexo de Édipo!



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O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade.


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- Mesmo o senhor, Professor, sonha a existência complexa demais. No entanto, parece-me que o senhor seja em parte responsável pelas complexidades da civilização moderna. Antes que o senhor inventasse a psicanálise, não sabíamos que nossa personalidade é dominada por uma hoste beligerante de complexos muito questionáveis. A psicanálise fez da vida um quebra-cabeças complicado.

- De maneira alguma, respondeu Freud. A psicanálise torna a vida mais simples. Adquirimos uma nova síntese depois da análise. A psicanálise reordena um emaranhado de impulsos dispersos, procura enrolá-los em torno do seu carretel. Ou, modificando a metáfora, ela fornece o fio que conduz a pessoa fora do labirinto do seu inconsciente.

- Ao menos na superfície, porém, a vida humana nunca foi mais complexa. E a cada dia alguma nova idéia proposta pelo senhor ou por seus discípulos torna o problema da condução humana mais intrigante e mais contraditório.

- A psicanálise, pelo menos, jamais fecha a porta a uma nova verdade.

- Alguns dos seus discípulos, mais ortodoxos do que o senhor, apegam-se a cada pronunciamento que sai da sua boca.

- A vida muda. A psicanálise também muda, observou Freud. Estava apenas no começo de uma nova ciência.

- A estrutura científica que o senhor ergueu me parece ser muito elaborada. Seus fundamentos - a teoria do "deslocamento", da "sexualidade infantil", do "simbolismo dos sonhos", etc. - parecem permanentes.

- Eu repito, porém, que nós estamos apenas no início. Eu sou apenas um iniciador. Consegui desencavar monumentos soterrados nos substratos da mente. Mas ali onde eu descobri alguns templos, outros poderão descobrir continentes.

- O senhor ainda coloca a ênfase sobretudo no sexo?

- Respondo com as palavras do seu próprio poeta, Walt Whitman: "Mas tudo faltaria, se faltasse o sexo" ("Yet all were lacking, if sex were lacking"). Entretanto, já lhe expliquei que agora coloco ênfase quase igual naquilo que está "além" do prazer - a morte, a negociação da vida.



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As emoções do cão lembram-nos os heróis da antiguidade. Talvez por essa razão, inconscientemente damos a nossos cães nomes de heróis antigos.


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Este desejo explica por que alguns homens amam a dor - como um passo para o aniquilamento! Explica por que todos buscam o descanso, porque os poetas agradecem a

Whatever gods there be,
That no life lives forever
That dead men rise up never
And even the weariest river
Winds somewhere safe to sea.

("Quaisquer deuses que existam/ Que a vida nenhuma viva para sempre/ Que os mortos jamais se levantem/ E também o rio mais cansado/ Deságüe tranqüilo no mar".)

- Shaw, como o senhor, não deseja viver para sempre, mas à diferença do senhor, ele considera o sexo desinteressante.

- Shaw, respondeu Freud sorrindo, não compreende o sexo. Ele não tem a mais remota concepção do amor. Não há um verdadeiro caso amoroso em nenhuma de suas peças. Ele faz brincadeira do amor de Júlio César - talvez a maior paixão da História. Deliberadamente, talvez maliciosamente, ele despe Cleópatra de toda grandeza, reduzindo-a uma insignificante garota.


A razão para a estranha atitude de Shaw diante do amor, para a sua negação do móvel de todas as coisas humanas, que tira de suas peças o apelo universal, apesar do seu enorme alcance intelectual, é inerente à sua psicologia. Em um de seus prefácios, ele mesmo enfatiza o traço ascético do seu temperamento.

Eu posso ter errado em muitas coisas, mas estou certo de que não errei ao enfatizar a importância do instinto sexual. Por ser tão forte, ele se choca sempre com as convenções e salvaguardas da civilização. A humanidade, em uma espécie de autodefesa, procura negar sua importância.



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Consegui desencavar monumentos soterrados nos substratos da mente.
Mas ali onde eu descobri alguns templos, outros poderão descobrir continentes.


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Se você arranhar um russo, diz o provérbio, aparece o tártaro sob a pele. Analise qualquer emoção humana, não importa quão distante esteja da esfera da sexualidade, e você certamente encontrará esse impulso primordial, ao qual a própria vida deve a perpetuação.

- O senhor, sem dúvida, foi bem sucedido em transmitir esse ponto de vista aos escritores modernos. A psicanálise deu novas intensidades à literatura.

- Também recebeu muito da literatura e da filosofia. Nietzsche foi um dos primeiros psicanalistas. É surpreendente até que ponto a sua intuição prenuncia as novas descobertas. Ninguém se apercebeu mais profundamente dos motivos duais da conduta humana, e da insistência do princípio do prazer em predominar indefinidamente. O de Zaratustra diz:


"A dor
Grita: Vai!
Mas o prazer quer eternidade
Pura, profundamente eternidade".


A psicanálise pode ser menos amplamente discutida na Áustria e na Alemanha do que nos Estados Unidos, a sua influência na literatura é imensa, porém.


Thomas Mann e Hugo von Hofmannsthak muito devem a nós. Schnitzler percorre uma via que é, em larga medida, paralela ao meu próprio desenvolvimento. Ele expressa poeticamente o que eu tento comunicar cientificamente. Mas o Dr. Schnitzler não é apenas um poeta, é também um cientista.

- O senhor, repliquei, não é apenas um cientista, mas também um poeta. A literatura americana está impregnada da psicanálise. Hupert Hughes, Harvrey O'Higgins e outros fazem-se de seus intérpretes. É quase impossível abrir um novo romance sem encontrar referência à psicanálise. Entre os dramaturgos, Eugene O'Neill e Sydney Howard têm profunda dívida para com o senhor. The Silver Cord, por exemplo, é simplesmente uma dramatização do complexo de Édipo.

- Eu sei, replicou Freud, e aprecio o cumprimento que há nessa constatação. Mas tenho receio da minha popularidade nos Estados Unidos. O interesse americano pela psicanálise não se aprofunda. A popularização leva à aceitação superficial sem estudo sério. As pessoas apenas repetem as frases que aprendem no teatro ou na imprensa. Pensam compreender algo da psicanálise porque brincam com seu jargão! Eu prefiro a ocupação intensa com a psicanálise, tal como ocorre nos centros europeus.


A América foi o primeiro país a reconhecer-me oficialmente. A Clark University concedeu-me um diploma honorário quando eu ainda era ignorado na Europa. Entretanto, a América fez poucas contribuições originais à psicanálise. Os americanos são



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Posso ter errado em muitas coisas, mas estou certo de que não errei ao enfatizar a importância do instinto sexual.


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divulgadores inteligentes, raramente são pensadores criativos. Os médicos nos Estados Unidos, e ocasionalmente também na Europa, procuram monopolizar para si a psicanálise. Mas seria um perigo para a psicanálise deixá-la exclusivamente nas mãos dos médicos, pois uma formação estritamente médica é, com freqüência, um empecilho para o psicanalista. É sempre um empecilho, quando certas concepções científicas tradicionais ficam arraigadas no cérebro do estudioso.

Freud tem que dizer a verdade a qualquer preço! Ele não pode obrigar a si mesmo a agradar a América, onde está a maioria de seus admiradores.


Apesar da sua intransigente integridade, Freud é a urbanidade em pessoa. Ele ouve pacientemente cada intervenção, não procurando jamais intimidar o entrevistador.Raro é o visitante que deixa sua presença sem algum presente, algum sinal de hospitalidade!
Havia escurecido.


Era tempo de eu tomar o trem de volta à cidade que uma vez abrigara o esplendor imperial dos Habsburgos.


Acompanhado da esposa e da filha, Freud desceu os degraus que levavam do seu refúgio na montanha à rua, para me ver partir. Ele me pareceu cansado e triste, ao dar o seu adeus.

- Não me faça parecer um pessimista, ele disse após o aperto de mão. Eu não tenho desprezo pelo mundo. Expressar desdém pelo mundo é apenas outra forma de cortejá-lo, de ganhar audiência e aplauso. Não, eu não sou um pessimista, não, enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! Não sou infeliz - ao menos não mais infeliz que os outros.

O apito de meu trem soou na noite. O automóvel me conduzia rapidamente para a estação. Aos poucos o vulto ligeiramente curvado e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram na distância.

Fontes: http://www.sbpsp.org.br/default.asp?link=freud
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sigmund_Freud