quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Dossiê: De bem com a vida - Golpe de sorte.

Como foi mostrado aqui e aqui, estamos apresentando as três reportagens ublicadas pela revista Mente e Cérebro sobre o tema De bem com a Vida.Os caminhos que o cérebro toma para entender e processar os mecanismos que nos levam a ficar em equilíbrio com a vida são muitos. Podemos, no entanto, aprender a olhar os acontecimento de maneira menos danosa para a nossa compreensão da felicidade.


Atribuir sucessos e fracassos ao acaso é cômodo; mas compreender as emoções e http://www.blogger.com/img/blank.gifusá-las a nosso favor pode criar excelentes oportunidades.http://www.blogger.com/img/blank.gif




A sorte é realmente cega? Psicólogos que trataram do tema explicam que, por trás da convicção de que somos “sortudos” ou “azarados”, há o desejo de manter os acontecimentos sob controle, sobretudo os que nos inquietam. A explicação tem antecedente histórico: já na década de 20 o antropólogo Bronislaw Malinowski observou que os pescadores nativos da Melanésia recorriam a magias sempre que tinham de explorar águas desconhecidas. Quando permaneciam em regiões vizinhas, porém, confiavam apenas nas próprias habilidades. “As superstições oferecem uma sensação ilusória de controle dos eventos, que pode ajudar a aplacar nossas ansiedades”, diz o psicólogo americano Stuart Vyse. “Por isso elas são necessárias nos momentos em que nos sentimos vulneráveis.”

Os argumentos são válidos, mas insuficientes, segundo o psicólogo Richard Wiseman, professor da Universidade de Hertfordshire, Inglaterra. Ex-ilusionista e interessado em fenômenos paranormais, Wiseman conduziu um complexo estudo sobre os mecanismos possivelmente relacionados à sorte. O projeto, financiado por várias instituições, entre as quais a Associação Britânica para o Avanço da Ciência, gerou um manual chamado O fator sorte, traduzido em mais de 20 idiomas.

Não é a primeira vez que a ciência tenta revelar as leis da sorte e do azar. Há alguns anos, o físico Richard A. J. Matthews estudou as chamadas leis de Murphy, a irônica suma do pessimismo resumida na máxima “se alguma coisa pode dar errado, dará”. Matthews investigou, em particular, por que uma fatia de pão com manteiga cai geralmente com o lado da manteiga para baixo. O fato foi confirmado por um estudo experimental, patrocinado por um fabricante de manteiga: o aparente azar deve-se simplesmente à relação física entre as dimensões da fatia e a altura em que estava colocada. São também explicáveis outros tipos de infortúnio, como o fato de que quando retiramos duas meias da gaveta geralmente elas não são do mesmo par.

Além disso, só damos atenção a certos fatos quando eles ocorrem – como a chegada do ônibus assim que se acende um cigarro –, o que contribui para reforçar nossos preconceitos e nos fazer ignorar as leis da probabilidade. “A diferença entre eventos ordinários e extraordinários é subjetiva”, explica o psicólogo Lorenzo Montali, da Universidade de Milão-Bicocca. “Estar atrasado, por exemplo, é um fato comum, mas certamente será recordado como um golpe de sorte se graças a ele somos salvos de um desastre.”

Ao estudar o pensamento não racional, Michael Wohl, psicólogo da Universidade Carleton, em Ontário, verificou que muitos jogadores obstinados estão convencidos de que podem influenciar o andamento de um jogo de azar graças à própria sorte, ignorando as leis da probabilidade e superestimando as possibilidades de vitória. Muitas vezes não nos damos conta de que certos eventos, como acertar na loteria, são raros, mas não impossíveis. “Quando ganhamos em um cassino, não pensamos no fato de que alguém tinha, necessariamente, de ganhar”, diz Montali.

Superstição e habilidade

A mesma conclusão foi obtida pelo estudo realizado em 2002 por Paola Bressan, professora de psicologia da Universidade de Pádua, e publicado em 2002 na revista Applied Cognitive Psychology. Ao pesquisar pessoas que acreditam em eventos paranormais, ela mostrou que certos acontecimentos parecem extraordinários porque não se leva em conta a probabilidade de que ocorram. Pesquisadores interessados nesses temas, porém, tendem a analisar comportamentos específicos e não a nossa relação com a sorte enquanto tal. Segundo Wiseman, isso ocorre porque “o conceito de sorte é difícil de definir, ou porque muitos psicólogos não gostam de enfrentar temas ligados à superstição ou à magia”.

Para traduzir esse conceito tão evasivo em termos concretos, Wiseman publicou em 1994 um anúncio no jornal solicitando que pessoas particularmente sortudas ou azaradas entrassem em contato com ele para que seus comportamentos fossem analisados. Descobriu que cerca de 9% desses indivíduos podiam ser considerados azarados e 12% favorecidos pela sorte.


ÍCONES DE AZAR, como o gato preto: certos fatos parecem extraordinários porque não levamos em conta sua probabilidade


Todos os outros entravam na média. A análise experimental dos traços de personalidade que distinguiam as duas categorias permitiu concluir que os azarados são mais tensos e concentrados, ao passo que os sortudos tendem a considerar as coisas de forma mais relaxada, mas sem perder de vista o contexto geral. Wiseman deu aos participantes um jornal, solicitando que contassem as fotos impressas e prometendo um prêmio aos que o fizessem corretamente. Ora, o número solicitado estava gravado de forma evidente sobre uma das páginas, algo que muitos “azarados” não perceberam, pois estavam concentrados demais na tarefa.

Se levarmos em conta os dados coletados, ter sorte significa saber escolher ou criar as oportunidades e as ocasiões mais vantajosas. “Estamos fazendo uma pesquisa estatística sobre o mecanismo que poderíamos definir com a expressão 'como o mundo é pequeno!'; tal mecanismo nos leva a encontrar freqüentemente pessoas que 'por acaso' conhecem outras pessoas ligadas a nós”, explica o psicólogo. “Sabemos que os 'felizardos' são também hábeis para estabelecer ligações entre diversos grupos de indivíduos, aumentando assim a possibilidade de encontros úteis.”

Os outros “fatores” da sorte consistem, segundo Wiseman, em seguir a própria intuição, ser otimista quanto ao futuro, não capitular diante das dificuldades e tentar, até onde possível, enfatizar aspectos positivos, inclusive dos eventos negativos. Em suma, trata-se de aprender a considerar as coisas de outra forma. Wiseman observa que dependendo do ponto de vista, mais que a situação em si, a pessoa pode se considerar bem ou mal sucedida. Em minha pesquisa, vários entrevistados acreditavam ter sorte na vida, mesmo que tivessem experimentado fatos dramáticos, doenças ou lutos. O que pensa uma pessoa que foi envolvida, involuntariamente, em incidente grave e “infeliz”, que saiu dele seriamente ferida mas, “felizmente”, viva? “Em geral, os pessimistas se julgam simplesmente realistas, mas os otimistas, ainda que vivam numa espécie de ilusão, desfrutam dos efeitos positivos dessa atitude”, assinala o psicólogo. O mesmo ocorre com pessoas que têm fé – tema de outra pesquisa de Wiseman –, algo que lhes permite dar sentido aos eventos que marcam a vida.


PERSEGUIDORES DE SIGNIFICADOS: atribuir valor sobrenatural a eventos cotidianos pode tornar o mundo menos ameaçador para alguns


Confiar na sorte é algo que, embora banal, está na base de nossa visão de mundo. Paola Bressan recorda que “a tendência a dar ordem e significado ao que acontece a nossa volta, criando rapidamente relações entre eventos simultâneos ou sucessivos – como o trovão e a tempestade ou a ingestão de comida estragada e mal-estar – é indispensável para a sobrevivência”. As pessoas mais inclinadas a essa atitude, os “perseguidores de significado”, conforme a expressão de Paola, tendem a subestimar as leis da probabilidade e a encontrar um maior número de “coincidências”, que atribuem à sorte ou a experiências paranormais. “Trata-se de ilusões cognitivas, que, porém, nos ajudam a viver melhor”, explica a psicóloga.

Atribuir os acontecimentos à sorte permite que a pessoa seja mais indulgente consigo mesma. “Segundo a teoria da atribuição, proposta em 1958 pelo psicólogo Fritz Heider, quando analisamos a causa de um fato, podemos nos basear em uma dimensão interna ou externa em relação a nós mesmos e estável ou instável quanto ao tempo”, explica Montali. Em suma, podemos atribuir o mau desempenho em um exame ao nosso despreparo, à má vontade do professor ou à constante antipatia deste em relação a nós.

Nessa perspectiva, sorte e azar são causas externas instáveis, que conferem sentido a um evento que até então não tinha sentido algum e reduzem a ansiedade causada pela incerteza. Ao mesmo tempo, isso nos absolve de qualquer culpa: “É um erro que protege o eu”, explica Montali, “tanto mais tendemos a atribuir os êxitos aos nossos talentos e os fracassos ao azar”. Esse erro pode alimentar preconceitos. “Um estudo feito em 1974 mostrou que indivíduos de ambos os sexos, interrogados sobre as causas do êxito profissional de pessoas famosas, tendem a atribuir o sucesso dos homens à capacidade destes e o das mulheres à sorte.”

“A superstição e o pensamento mágico são instrumentos para enfrentarmos a incerteza: quando nos consideramos azarados estamos dizendo que não somos responsáveis por nossos fracassos”, resume Wiseman, que hoje oferece verdadeiras “lições de sorte” a gerentes e outros interessados: “Alguns dos meus alunos 'azarados' conseguem mudar radicalmente a vida quando assimilam as regras que sugiro. Ser sortudo quer dizer enfrentar os problemas de forma criativa”.

Bruxos do bem


CARTAS DO DESTINO: recorrer a videntes é um modo de afastar incertezas


Recorrer a videntes também é uma forma de afastar incertezas, confiando a outros o nosso destino. Wiseman explica: “Essas pessoas, muitas vezes, levantam problemas que nem sequer existem, oferecendo-nos então uma solução custosa. E são bastante astutas para nos convencer de que sua intervenção afastou uma ameaça na verdade inexistente. Já aqueles que procuram videntes tendem a ignorar as predições negativas, concentrando-se nas positivas. É uma atitude típica de quem não gosta da incerteza. Minha experiência sugere que são justamente as situações indeterminadas que nos permitem assumir o controle sobre nossa vida”.

Muitos confiam ainda em amuletos, como, por exemplo, um objeto que carregavam consigo em um momento particularmente favorável da vida. “Os talismãs nos dão a sensação de que retomamos o controle da situação e têm a vantagem de não servir como desculpa para não enfrentarmos as situações; aliás, algumas pessoas 'sortudas' que estudamos carregavam um”, conclui o psicólogo. Wiseman está preparando um “amuleto científico”, isto é, um medalhão no qual serão inscritos os princípios que inspiram a “escola da sorte”. Sua proposta é testar experimentalmente a eficácia desse objeto com seus alunos.

Ficção e fortuna

Quem é mais simpático: Gastão ou o Pato Donald? Intérpretes do imaginário coletivo, os personagens de Walt Disney resumem também nossa atitude diante da sorte. Gastão é a tal ponto sortudo que às vezes é obrigado a se defender da sorte que o brinda constantemente com honrarias e prêmios. Pode nos fazer rir, mas a simpatia do leitor – e de Margarida, que Gastão tenta, em vão, conquistar – vai para o azarado Donald. Gastão é irritante porque não faz esforço para ganhar dinheiro e prestígio, enquanto o Pato Donald tenta, inutilmente, lutar contra o azar que o persegue. Tio Patinhas, por sua vez, obteve êxito financeiro com muito trabalho.

Em suma, a sorte nos agrada, mas os sortudos, nem tanto. “Em parte porque”, comenta Wiseman, “é sempre mais consolador encontrar alguém mais tolo ou azarado que nós.” E talvez também porque as cômicas desventuras dos personagens dos quadrinhos – catastróficas, mas sem conseqüências permanentes – nos ajudam a tornar mais leve acontecimentos graves. Torcemos pelo Coiote em suas tentativas, sempre fracassadas, de capturar Beep Beep. E gostamos da ironia com que Charlie Brown comenta os pequenos desastres cotidianos que marcam sua vida. A simpatia desses personagens nasce da energia com que enfrentam as dificuldades cotidianas. Assim, no mundo dos quadrinhos e do cinema, são poucos os personagens afortunados, como Lucky Luke, o imbatível pistoleiro criado pelo belga Morris.

Além disso, muitas vezes um super-herói deve suas características a um evento dramático que o tornou diferente das pessoas normais e tem, assim, um “calcanhar-de-aquiles” que nos faz temer por seu destino. O próprio mecanismo da narrativa, que precisa ser alimentado por infortúnios e contrastes, torna a sorte algo pouco atraente. Parafraseando Tolstoi, poderíamos dizer que todos os personagens sortudos são afortunados do mesmo modo e, portanto, um pouco tediosos. Isso foi explorado magistralmente por Pirandello ao retratar, no conto “O diploma”, o maléfico antiherói Rosário Chiàrchiaro, que solicita e obtém um reconhecimento oficial de seus poderes funestos. Assim, ele consegue ao menos extrair alguma vantagem da superstição de seus compatriotas, que condenaram sua família e ele próprio à marginalidade.

Fonte: http://www2.uol.com.br/vivermente/dossie/dossie_de_bem_com_a_vida_-_golpe_de_sorte.html

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