sexta-feira, 25 de maio de 2012

A menina que sofria do “mal de mãe”

Especialistas estimam que um terço das pessoas que apresentam sintomas de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) são crianças e adolescentes.



O diagnóstico normalmente é difícil e muitas vezes só é possível quando pais ou professores observam no comportamento do paciente tendência ao perfeccionismo, isolamento e excessiva timidez. É muito comum que as crianças não reconheçam que suas atitudes são exageradas e sem sentido, ou tenham vergonha, preferindo escondê-las dos adultos. O quadro se agrava com a dificuldade dos pais em aceitar que o filho esteja com o distúrbio, por constrangimento diante dos outros. As duas mães de Mila, da escritora francesa Clara Vidal, apresenta a dolorosa história da menina que, dos 9 aos 15 anos, desenvolve rituais obsessivos como defesa para as situações de violência psíquica que enfrenta dentro de casa. O livro faz parte da coleção Estado de alerta, da editora SM, que reúne histórias sobre momentos de crise protagonizados por crianças ou adolescentes.

Leia a seguir trechos do romance e o posfácio do psicanalista Paulo Schiller, tradutor da obra.

As duas mães de Mila
“Mila tem duas mamães. Ela tem certeza disso, desde bem pequena. Desde que viu na TV um desenho animado de duas heroínas que eram gêmeas. Duas menininhas idênticas, mas que tinham personalidades muito diferentes. Uma era doce e delicada, a outra, violenta e malvada. A mãe de Mila é assim. Às vezes rosa e delicada, às vezes cinza e malvada. São com certeza duas pessoas, duas irmãs gêmeas, que dividem a educação de Mila. Ela não se pergunta se o pai sabe disso. E não discrimina qual das duas é a verdadeira mãe. Há dias em que Mila quer que a mãe verdadeira seja a rosa e delicada, pois é muito mais agradável. Mas acontece também de Mila sentir pena da cinza, malvada, raivosa, que vive chorando muito. Quando a mãe cinza diz que está infeliz e doente, Mila tem vontade de fazer tudo para consolá-la e vê-la sorrir.

É assim que Mila vive, entre as duas mães, uma rosa e outra cinza. Não é muito difícil. Quando a mãe está de bom humor, é com certeza a mãe rosa que chegou. Quando ela se transforma numa harpia1, foi a mãe cinza que tomou o seu lugar. O jeito, então, é esperar que a mãe rosa volte.”

(...)
“No auge da preocupação, Mila inventa uma fórmula mágica a fim de transferir para si mesma o mal-estar da mãe: “Mamãe, dê-me a sua doença. Eu te dou a minha saúde”. Ela repete a frase mentalmente até se sentir esgotada, com a sensação de que a saúde da mãe depende dela, de que é responsável por sua cura.

Certa noite, à mesa, depois de uma crise, mamãe está servindo o jantar, ainda muito abatida. Volta-se para Mila e diz:
– Você contou pro seu pai o que me aconteceu?

O pai lança um olhar resignado para a filha. Ele compreende, uma vez mais. Socorre-a:
– Você teve de novo uma das suas indisposições, como de costume?
– Não, justamente, não como de costume. Dessa vez tive de verdade a impressão de que ia acabar. Um dia desses não vou escapar.
– Cale-se. Você sabe muito bem que isso faz mal à menina!

Mila ocupa-se em desenhar “erres” sobre a toalha com o indicador. E, ao lado de cada “r”, ela acrescenta um “s”, de “saúde”, não só para que a mãe volte a sorrir, mas também para que tenha boa saúde. De noite, ao dar as voltas pelo quarto, ela acaba acrescentando também a letra “s” aos seus encantamentos.”


A crueldade à espreita
Por Paulo Schiller

Mila não é única. A história de Mila não é incomum como desejaríamos que fosse. Por outro lado, com certeza existem muitas mães melhores que a dela, mais suaves, amorosas e dedicadas. Com diferentes intensidades, a distância e a omissão do pai de Mila também não são raridade nas narrativas escutadas no cotidiano dos consultórios de psicanálise ou de psicoterapia. Para além das famílias mais “saudáveis”, se abre todo um espectro de relações entre pais e filhos que se estende de vínculos simbióticos, quase incestuosos, a situações em que prevalece o desprezo e, às vezes, a maldade.

É sedutor pensar que a maldade depende de um gene extraviado ou que a crueldade nasce de um desarranjo bioquímico em um grupo de células cerebrais.

É confortável nomear sob diagnósticos precisos a anorexia, a depressão e as obsessões. Além da ilusão de conhecimento e de domínio, a nomeação nos autoriza a prescrever drogas discutíveis e de valor efêmero que amortecem a busca pelas causas da melancolia, da tristeza e do mal-estar próprios da natureza humana.

A medicação irresponsável de crianças, novidade incentivada pela indústria farmacêutica, alimentada sem critérios cuidadosos pelos meios de comunicação, se vale da complacência da sociedade, que assim se livra de suas responsabilidades. Mila seria hoje rotulada por alguns como portadora, entre outros males, de um transtorno obsessivo-compulsivo, candidata ao uso da droga do momento. Entretanto, durante a leitura do livro, acompanhamos, impotentes, a lógica impiedosa da montagem que resultou em seus sintomas. Em certo sentido, Mila teve sorte. Ao final, abriu-se para ela a possibilidade de falar, de desmontar e de se libertar não dos seus genes, mas dos seus fantasmas, do seu romance familiar.

A crueldade, também própria do homem, nos espreita.

Quase sempre de longe, nas palavras e ilustrações dos livros de história, nas narrativas de tragédias em terras e tempos remotos. Dizemos, conformados, que as guerras sempre existiram, que a violência é parte da natureza humana. Algumas vezes, a crueldade emerge dos textos e das telas e aparece no presente, viva, próxima, palpável. Irrompe na vizinhança, trai ou atinge um conhecido, denuncia um parente distante, aproxima-se ameaçadora.

Pressentimos, embora de uma forma nebulosa, que a crueldade retratada nos livros de histórias nasce entre as paredes que delimitam a vida familiar.

Toda professora sabe que, para além da inocência, a intriga e a maldade permeiam as relações entre as crianças e desconfiam, acertadamente, que elas reproduzem situações domésticas. Toda babá sabe que a sexualidade nos marca desde os primeiros anos, a despeito do devaneio dos sonhadores que pretendem ver na infância um tempo apenas de alegrias e encantamentos.

Os conflitos retratados na paisagem que se mostra pela janela aberta para o mundo infelizmente demonstram que não existe nenhuma evidência de que os pais fazem, concretamente, o melhor pelos filhos. Apesar das recomendações religiosas, morais e pedagógicas, apesar do conhecimento hoje amplamente disponível, não há pai ou mãe que não tenha sido surpreendido um dia pelo pensamento fugaz, verdadeiro, que revela um momento de negligência ou de descuido. Temos, em um plano mais ou menos superficial, certa consciência das nossas faltas e transgressões. Não somos, talvez sem exceções, ilhas de santidade cercadas de maldade por todos os lados.

Fonte: http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/a_menina_que_sofria_do_-mal_de_mae-.html

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