quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Por que bebês não falam como adultos?



Crianças passam do “gugu-dadá” para o domínio da linguagem seguindo um passo de cada vez; estudos recentes levam alguns pesquisadores a considerar que o desenvolvimento mental mais adiantado tem pouca influência no cumprimento desses estágios essenciais.
O cenário: um berçário. Um bebê fala diretamente para a câmera: “Olhe para isso. Eu sou um homem livre. Posso ir aonde quiser agora”. Ele descreve suas últimas atividades no mercado de ações e é interrompido pelo telefone que toca. “Que horror! Espere um minuto.” Ele atende. “Ei, garota, posso te ligar depois?” Esse comercial de pouco mais de um minuto da E*Trade, veiculado em vários países (e disponível no YouTube), é apenas um exemplo de algo que atores e diretores de cinema sabem há anos: é curioso e inusitado ver um bebê falando como adulto. Mas, afinal, por que crianças pequenas não conseguem se expressar de forma articulada? Tentando responder a essa pergunta, pesquisadores estão descobrindo pistas sobre o desenvolvimento do cérebro e sobre o misterioso processo de aprendizagem de uma língua. Trabalhos recentes apoiam a ideia de que a forma como as crianças aprendem – com passinhos de bebê – é sempre a mesma, não importa com qual idade comecem a aprender um idioma. Em outras palavras, alguns especialistas defendem que o nível de desenvolvimento mental do bebê tem muito pouca relação com o fato de conseguir ou não falar frases completas.

Muitos acreditam que crianças aprendem a falar copiando o que escutam. Ou seja, bebês ouvem as palavras ditas pelos adultos, percebem a situação em que são usadas e imitam. O behaviorismo, a abordagem científica que dominou o estudo americano sobre cognição na primeira metade do século XX, usava exatamente esse argumento. Essa teoria do “papagaio”, entretanto, não consegue explicar por que bebês não são tão fluentes quanto os adultos. Afinal, quando foi a última vez que você ouviu um adulto se expressar com frases formadas por uma única palavra (“mamá”, “papá”) e usar frases curtas, como “mãe abre caixa”? É claro que é muito fácil mostrar que a teoria da imitação para aquisição da língua não pode esclarecer esses estranhos padrões na fala infantil. Na verdade, explicar o mundo com frases de uma palavra é muito mais difícil.

Ao longo dos últimos 50 anos, os cientistas chegaram a duas possibilidades razoáveis. Primeiro, a “hipótese do desenvolvimento mental” diz que uma criança de 1 ano fala dessa maneira porque seu cérebro imaturo não consegue lidar com discursos adultos. As crianças não aprendem a andar até que seu corpo esteja pronto; da mesma maneira, não falam com sentenças múltiplas ou usam sufixos e palavras que expressem funções ou situações complexas (“Mamãe abriu as caixas”) antes que seu cérebro seja capaz de lidar com isso. A segunda teoria, a “hipótese dos estágios da linguagem”, postula que o progresso crescente dos passos na fala das crianças é um processo necessário para o desenvolvimento. Um jogador de basquete não consegue encestar perfeitamente a bola antes de conseguir pular e lançar a bola, e as crianças, de maneira semelhante, aprendem primeiro a somar, depois a multiplicar – nunca na ordem inversa.

No aprendizado da língua, existem evidências de que tais movimentos são necessários para a fluência. Em 1997, por exemplo, um artigo de revisão escrito pelas cientistas cognitivas Elizabeth Bates, da Universidade da Califórnia, San Diego, e Judith C. Goodman, da Universidade Missouri-Columbia, revelou que estudos com crianças pequenas mostravam de forma consistente que elas não começavam a falar usando sentenças com duas frases até que tivessem aprendido certo número de palavras. Segundo as pesquisadoras, enquanto as crianças não cruzam esse limiar linguístico, o processo de combinação de palavras não começa.



A diferença entre as teorias pode ser resumida da seguinte forma: segundo a hipótese do desenvolvimento mental, os padrões de aprendizado de linguagem deveriam depender do nível intelectual da criança na fase em que começa a aprender uma língua. Segundo a hipótese dos estágios de linguagem, entretanto, os padrões de apreensão do conhecimento não dependem da capacidade mental. Porém, Porém, é difícil testar essa hipótese experimentalmente porque a maioria das crianças aprende a falar por volta da mesma idade – em estágios similares de desenvolvimento cognitivo.

Em 2007, os pesquisadores da Universidade Harvard criaram uma maneira engenhosa de contornar o problema. Mais de 20 mil crianças adotadas entram nos Estados Unidos todos os anos. Muitas delas não são mais expostas à língua nativa depois da chegada e precisam aprender o inglês mais ou menos da mesma maneira que os bebês – isto é, ouvindo e por tentativa e erro. Os adotados de outros países (que em geral não têm a primeira língua bem desenvolvida) não assistem a aulas nem usam dicionário quando estão aprendendo sua nova língua. Esses fatores fazem com que apresentem as condições ideais para que sejam testadas duas hipóteses sobre como aprendemos uma língua.

Os neurocientistas Jesse Snedeker, Joy Geren e Clarissa L. Shafto estudaram o desenvolvimento da linguagem de 27 crianças chinesas, com idade entre 1 e 5 anos, recebidas por famílias americanas. Obviamente, as crianças começaram a aprender inglês mais tarde do que uma criança americana nativa e, logo, tinham cérebro mais maduro para realizar a tarefa. Mesmo assim, como os nascidos nos Estados Unidos, as primeiras frases em inglês dos pequenos voluntários consistiam em palavras únicas com ampla privação de palavras de função, sufixos e verbos. Curiosamente, elas passaram pelos mesmos estágios delinguagem que as crianças americanas nativas, embora de forma mais rápida. Adotados e nativos começaram a combinar palavras em sentenças quando seus vocabulários atingiram o mesmo tamanho, sugerindo que não importa a idade ou a maturidade do cérebro – mas sim o número de palavras que conhecemos.



A descoberta de que ter um cérebro mais maduro não ajudou os adotados a evitar o estágio inicial de aquisição da linguagem sugere que a fala de crianças pequenas não se instala porque elas têm um “cérebro de bebê”, mas apenas porque elas acabaram de começar o aprendizado e precisam de tempo para adquirir vocabulário suficiente para conseguir expandir suas conversações. Muito antes, o estágio da “palavra única” cria os meios para a fase de dois vocábulos. Aprender a dialogar como um adulto, portanto, é um processo gradual – não há como saltar etapas.

Mas essa resposta potencial também levanta uma questão mais difícil e mais antiga: por que imigrantes adultos que aprendem uma segunda língua raramente atingem a mesma proficiência em linguagem que as crianças criadas por nativos? Os pesquisadores suspeitam, há muito tempo, da existência de um período crítico para o desenvolvimento da linguagem, após o qual é pouco provável que se consiga fluência total. Entretanto, estamos longe de entender esse período crítico. Ainda não se sabe exatamente quando na vida de uma criança ele ocorre ou por que ele acaba – e alguns especialistas questionam até mesmo sua existência.

Paradoxalmente, embora Snedeker, Geren e Shafto possam explicar por que não existem bebês falantes – uma perspectiva tão absurda que nos faz rir em comerciais e filmes –, ainda precisamos explicar como esses pequenos se tornam adultos eloquentes.



CANTIGAS, BRINCADEIRAS E RIMAS

Quase todos os autores que atravessaram o século XX discutindo a questão da aquisição da linguagem – mesmo grandes nomes como Jean Piaget e Lev Vygotsky – põem ênfase em seu papel comunicativo. Para alguns pesquisadores, o desenvolvimento dessa capacidade resulta de um processo empírico, ou seja, é determinado por pressões do meio sobre o indivíduo. Para outros, não se pode pensar na linguagem como uma transferência do saber de fora (do ambiente) para dentro da mente; em vez disso, ela seria produzida pela razão e pela inteligência.

Os adeptos do racionalismo, por sua vez, atribuem sua aquisição às estruturas cognitivas (hereditárias ou inatas) do ser humano, como bem o demonstram as teorias inatistas do linguista Noam Chomsky. Ainda hoje, porém, boa parte dos estudos nessa área foca apenas a comunicação direta entre o adulto e a criança, deixando de lado um universo riquíssimo, composto por cantigas de ninar, brincadeiras com rimas e os muitos jogos verbais. É inegável, entretanto, que os bebês são tocados e estimulados de várias formas pela voz do adulto numa época anterior aos 2 anos, quando os pequenos recorrem ao corpo para se expressar. Nessa fase, os gestos e os sons emitidos por eles ocupam o lugar das palavras que ainda não podem ser pronunciadas. Esse processo pode ser estimulado, por exemplo, quando as crianças ouvem palavras ritmadas e cadências sonoras que as fazem adormecer. De início são as cantigas de ninar e o mamanhês (fala materna que se caracteriza por uma entonação particular ao se dirigir à criança) que acalantam os pequenos. Depois vêm os jogos orais propostos pelos adultos e que darão origem às brincadeiras de infância, nos quais confluem movimento e linguagem.

Assim como as cantigas, as histórias e lendas são preciosos brinquedos invisíveis que também podem ser importantes constituintes de subjetividade, caracterizando-se como objetos lúdicos e matrizes da linguagem oral e escrita.

Fonte: http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/por_que_bebes_nao_falam_como_adultos_.html

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