domingo, 9 de outubro de 2011

Resenha do livro O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu.


O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, 272 páginas, livro do neurologista e escritor Oliver Sacks. Com acentuada habilidade de romancista, neste livro, o Dr. Oliver Sacks, professor do Albert Einstein College of Medicine (Nova York), narra novos casos clínicos de pacientes com distúrbios neurológicos. Como sempre, ressalta-se a preocupação do médico em atentar para o desenvolvimento de modos comportamentais alternativos, dignos e humanos, para seus clientes.
Antes de iniciar a leitura deste livro, procurei informações a respeito na internet sobre o conteúdo, hábito particular corriqueiro. Encontrei muitas declarações de pessoas que mencionavam a obra como uma excelente oportunidade de conhecer as formas investigativas e os diagnósticos em neurologia.
Realmente, a leitura do livro, além de rápida e fluente, vai além, na medida em que se mostra também como um achado de referências a várias entidades das artes humanas, tanto na música, arte e literatura.
Os pacientes retratados por Oliver Sacks são uma fonte de conhecimento para o leitor.

O que não falta no livro é olhar crítico sobre o poder investigativo, indutivo e dedutivo, de um neurologista curioso pronto a reconhecer as diversas patologias. O leitor pode conferir isso a partir da dinamicidade apresentada em cada um de seus capítulos. Cada história, por si só, poderia ser desmembrada em uma série de análises, compondo um caso clínico rico e instrutivo.

Segue abaixo o texto "O homem que confundiu sua mulher com um chapéu" , que é o primeiro caso clínico apresentado pelo autor no livro homônimo.

O HOMEM QUE CONFUNDIU SUA MULHER COM UM CHAPÉU

O dr. P. era um músico excelente, fora célebre como cantor durante muitos anos e depois, na faculdade de música de sua região, como professor. Foi ali, no relacionamento com seus alunos, que certos problemas foram observados pela primeira vez. Às vezes um aluno se apresentava e o dr. P. não o reconhecia ou, especificamente, não reconhecia seu rosto. No momento em que o aluno falava, o dr. P. reconhecia-o pela voz. Incidentes como esse multiplicaram-se, causando embaraço, perplexidade, medo e, às vezes, situações cômicas. Pois não só o dr. P. cada vez mais deixava de reconhecer rostos, mas ainda por cima via rostos onde eles não existiam: na rua, jovialmente, à la mr. Magoo, ele afagava o topo de hidrantes e parquímetros pensando que eram cabeças de crianças; dirigia-se cordialmente aos puxadores esculpidos dos móveis e se espantava quando eles não respondiam. A princípio, as pessoas, e até mesmo o dr. P, riam dessas confusões esquisitas, julgando que eram gracejos. Pois ele não tivera sempre um senso de humor peculiar, dado a chistes e paradoxos em estilo zen? Suas capacidades musicais continuavam deslumbrantes como sempre; ele não se sentia doente - jamais se sentira melhor na vida —, e os enganos eram tão risíveis, e tão originais, que não poderiam ser sérios ou significar algo grave. A idéia de que havia ”algo errado” só foi surgir uns três anos depois, quando o diabetes se manifestou. Ciente de que o diabetes poderia afetar-lhe a visão, o dr. P. consultou um oftalmologista, que fez um histórico minucioso e lhe examinou atentamente os olhos. ”com seus olhos não há nada de errado”, concluiu o médico. ”Mas há problema nas partes visuais de seu cérebro. O senhor não precisa de meus serviços, precisa consultar um neurologista.” E assim, em conseqüência desse parecer, o dr. P. me procurou.
Assim que o vi, em poucos segundos ficou evidente que não havia traço algum de demência na acepção comum do termo. Ele era um homem muito culto e simpático, falava bem, com fluência, imaginação e humor. Eu não podia imaginar por que ele teria sido encaminhado à nossa clínica.
E no entanto havia alguma coisa meio estranha. Ele ficava de frente para mim quando falava, estava orientado para mim, porém existia algum problema — era difícil dizer. Ele me encarava com os ouvidos, acabei por constatar, mas não com os olhos. Estes, em vez de me olhar, de me fitar, de me ”acolher” da maneira normal, faziam estranhas fixações súbitas — em meu nariz, minha orelha direita, desciam até meu queixo, subiam para meu olho direito — como se estivessem notando (ou até mesmo estudando) essas características individuais, porém sem enxergar o rosto inteiro, suas expressões mutáveis, ”eu” como um todo. Não tenho certeza de ter percebido isso totalmente na época — havia apenas uma provocadora estranheza, alguma falha na interação normal entre olhar e expressão. Ele me via, corria os olhos por mim e, no entanto...
”Qual parece ser o seu problema?”, perguntei por fim.
”Nenhum que eu saiba”, ele replicou com um sorriso. ”Mas as pessoas parecem achar que há algo errado em meus olhos”.
”Mas o senhor não reconhece algum problema visual?”
”Não, não diretamente, mas de vez em quando cometo erros”.
Saí da sala por alguns momentos para conversar com sua esposa. Quando retornei, o dr. P. estava sentado placidamente perto da janela, atento, ouvindo em vez de olhar para fora. ”O tráfego”, disse ele, ”sons das ruas, trens à distância — eles compõem uma espécie de sinfonia, não acha? Conhece a Pacific 234 de Honegger?”
Que homem mais simpático, pensei comigo. Como é que pode haver algum problema sério? Ele permitiria que eu o examinasse?
”Sim, mas claro, doutor Sacks.”
Acalmei minha inquietação, e talvez também a dele, na tranqüilizadora rotina de um exame neurológico — força muscular, coordenação, reflexos, tono... Foi enquanto examinava seus reflexos — ligeiramente anormais do lado esquerdo — que ocorreu a primeira experiência bizarra. Eu havia tirado seu sapato do pé esquerdo e arranhado a sola do pé com uma chave — um teste de reflexo aparentemente frívolo, porém essencial — e em seguida, pedindo licença para parafusar o oftalmoscópio, deixei-o sozinho para que ele calçasse o sapato. Para minha surpresa, um minuto depois ele não o calçara.
”Posso ajudar?”, perguntei.
”A fazer o quê? Ajudar quem?”
”Ajudá-lo a calçar o sapato.”
”É mesmo, eu tinha esquecido o sapato”, disse ele, acrescentando sotto você ”O sapato? O sapato?”. Ele parecia desconcertado.
”Seu sapato”, repeti. ”Talvez queira calçá-lo”.
Ele continuou a olhar para baixo, embora não para o sapato, com uma concentração intensa mas mal dirigida. Por fim seu olhar parou sobre seu pé. ”Esse é meu sapato, não?”
Eu teria ouvido mal? Ele teria visto mal?
”Meus olhos”, ele explicou, levando a mão ao pé. ”Este é meu sapato, não é?”
”Não, não é. Esse é seu pé. O sapato está ali”.
”Ah! pensei que aquele fosse meu pé”.
Ele estaria brincando? Estaria louco? Estaria cego? Se aquele era um de seus ”erros estranhos”, então era o erro mais estranho que eu já vira.
Ajudei-o a calçar o sapato (seu pé) para evitar mais complicações. O dr. P. parecia despreocupado, indiferente, talvez estivesse achando graça. Voltei a meu exame. Sua acuidade visual era boa: ele não tinha dificuldade para enxergar um alfinete no chão, embora às vezes não o visse quando era posto à sua esquerda.
Ele enxergava bem, mas o que via? Abri uma revista National Geographic e lhe pedi que descrevesse algumas ilustrações.
Suas respostas foram muito curiosas. Seus olhos dardejavam de uma coisa para outra, captando características minúsculas, características individuais, como haviam feito com meu rosto. Um brilho marcante, uma cor, uma forma prendiam-lhe a atenção e suscitavam comentários—mas em nenhum caso ele captou a cena como um todo. Ele não conseguia ver o todo, apenas detalhes, que localizava como os bips de uma tela de radar. Ele não estabelecia uma relação com a figura como um todo - não encarava, por assim dizer, a fisionomia da figura. Não tinha a menor noção de paisagem ou cena. 25
Mostrei-lhe a capa, uma extensão ininterrupta das dunas do Saara.
”O que vê aqui?”, perguntei.
”Vejo um rio”, ele respondeu. ”E uma pequena hospedaria com um terraço à beira d’água. As pessoas estão almoçando no terraço. Vejo guarda-sóis coloridos aqui e ali”. Ele estava olhando, se é que aquilo era ”olhar”, direto para fora da revista e fabulando características inexistentes, como se a ausência de características na figura real o tivesse levado a imaginar o rio, o terraço e os guarda-sóis coloridos.
Eu devo ter feito uma cara de espanto, mas ele parecia pensar que se saíra otimamente. Havia um esboço de sorriso em seu rosto. Ele também parecia ter decidido que o exame terminara, e começou a olhar em volta à procura de seu chapéu. Estendeu a mão e agarrou a cabeça de sua mulher, tentou erguê-la e tirá-la para pôr em sua cabeça. Parecia que ele tinha confundido sua mulher com um chapéu! Ela olhava como se estivesse acostumada com coisas assim.
Eu não conseguia entender o que ocorrera em termos de neurologia (ou neuropsicologia) convencional. Em alguns aspectos, ele parecia perfeitamente preservado e, em outros, absolutamente, incompreensivelmente, arruinado. Como é que ele podia, por um lado, confundir sua mulher com um chapéu e, por outro, como aparentemente ainda fazia, lecionar na faculdade de música?
Eu precisava refletir, vê-lo de novo — e vê-lo em seu habitat familiar, em sua casa.
Poucos dias depois, fui à casa do dr. P. e esposa, levando na pasta uma partitura do Dichterliebe (eu sabia que ele gostava de Schumann) e uma variedade de objetos para o teste de percepção. A Srª. P. recebeu-me em um apartamento suntuoso, que lembrava a Berlim do fin-de-siècle. Um magnífico Bõsendorfer antigo dominava, imponente, o centro da sala e, por toda parte, havia estantes de música, instrumentos, partituras... Havia livros, havia quadros, mas a música era central. O dr. P. entrou, um tanto curvado e, perturbado, avançou com a mão estendida para o relógio de pêndulo mas, ouvindo minha voz, corrigiu-se e veio apertar minha mão. Trocamos cumprimentos e conversamos um pouco sobre os concertos e apresentações em cartaz. Timidamente, perguntei-lhe se gostaria de cantar.

”O Dichterlieber, exclamou. ”Mas eu já não consigo ler partituras. O senhor poderia tocar?“.
Eu disse que tentaria. Naquele esplêndido piano antigo, até o que eu tocava parecia bom, e o dr. P. era um Fischer-Dieskau, idoso mas infinitamente harmonioso, combinando ouvido e voz perfeitos com a mais penetrante inteligência musical. Era evidente que a faculdade de música não o mantinha por caridade.
Os lobos temporais do dr. P. estavam obviamente intactos: ele possuía um excelente córtex musical. Fiquei imaginando o que poderia estar ocorrendo em seus lobos parietal e occipital, especialmente nas áreas responsáveis pelo processamento visual. Eu trazia poliedros regulares em meu kit neurológico e decidi começar com eles.
”O que é isto?”, perguntei, retirando o primeiro.
”Um cubo, é claro.”
”E este?”, indaguei, mostrando outro.
Ele perguntou se podia examiná-lo, o que fez de um modo rápido e sistemático. ”Um dodecaedro, naturalmente. E não perca tempo com os outros — eu reconhecerei o icosaedro também.”
Estava claro que as formas abstratas não eram problema. E quanto aos rostos? Peguei um baralho. Ele identificou todas as cartas instantaneamente, inclusive valetes, rainhas, reis e coringa. Estes, porém, eram desenhos estilizados, não se podendo afirmar se ele via rostos ou meros padrões. Decidi mostrar-lhe um livro de caricaturas que eu tinha na pasta. Com estas, de um modo geral, ele saiu-se bem: o charuto de Churchill, o nariz de Schnozzle — assim que percebia uma característica importante, ele era capaz de identificar o rosto. Mas também as caricaturas são formais e esquemáticas. Restava saber o que ele faria com rostos reais, representados realisticamente.
Liguei o televisor, mantendo-o sem som, e encontrei um dos primeiros filmes de Bette Davis. Era uma cena de amor. O dr. P. não conseguiu identificar a atriz — porém isso poderia dever-se ao fato de ela nunca ter entrado em seu mundo. O mais espantoso era ele não conseguir identificar as expressões no rosto da atriz ou de seu parceiro, embora no decorrer de uma cena tórrida os dois passassem da ânsia ardente à paixão, surpresa, indignação, fúria e, por fim, uma reconciliação comovente. O dr. P. não conseguia perceber nada disso. Não indicou com clareza o que estava se passando, quem era quem ou mesmo de que sexo eram. Seus comentários sobre a cena eram decididamente marcianos.
Havia a possibilidade de que algumas de suas dificuldades estivessem associadas à irrealidade de um mundo holly woodiano de celulóide; ocorreu-me que ele talvez se saísse melhor identificando rostos de sua própria vida. Nas paredes do apartamento havia fotografias de sua família, colegas, alunos, dele próprio. Reuni uma pilha delas e, meio apreensivo, mostrei-as ao dr. P. O que fora engraçado ou grotesco com relação ao filme revelou-se trágico com relação à sua vida. De um modo geral, ele não reconheceu pessoa alguma: nem parentes, nem colegas, nem alunos, nem a si próprio. Reconheceu um retrato de Einstein porque percebeu o cabelo e o bigode característicos, e o mesmo aconteceu com uma ou duas outras pessoas. ”Ah, Paul!”, disse ele ao ver um retrato do irmão. ”Esse queixo quadrado, esses dentões-eu reconheceria Paul em qualquer lugar!” Mas era Paul que ele reconhecia ou uma ou duas de suas características, com base nas quais ele conseguia fazer uma boa suposição quanto à identidade do sujeito? Na ausência de ”marcadores” óbvios, ele se perdia por completo. Mas não era apenas uma deficiência da cognição, da gnose; havia alguma coisa radicalmente errada em todo o modo como ele procedia. Pois ele lidava com aqueles rostos — mesmo os das pessoas mais chegadas — como se fossem quebra-cabeças ou testes abstratos. Não se relacionava com eles, não os contemplava. Nenhum rosto lhe era familiar, visto como um ”você”; era apenas identificado como um conjunto de características, uma ”coisa”. Assim, havia gnose formal, mas nenhum traço de gnose pessoal. E isso vinha acompanhado de sua indiferença, ou cegueira, para as expressões. Um rosto, para nós, é uma pessoa olhando para fora — vemos, por assim dizer, a pessoa por intermédio de sua persona, de seu rosto. Mas para o dr. P. não havia persona neste sentido — nenhuma persona exterior, e nenhuma pessoa interior.
No caminho para o apartamento do dr. P, eu havia entrado em uma floricultura e comprado uma vistosa rosa vermelha para pôr na lapela. Tirei-a dali e a passei para o dr. P. Ele a pegou como um botânico ou morfologista pegaria um espécime, e não como alguém que recebe uma flor.
”Uns quinze centímetros de comprimento”, comentou. ”Uma forma vermelha em espiral, comum anexo linear verde”.
”Sim”, falei, encorajador, ”e o que o senhor acha que é isso, doutor P?”?
”Não é fácil dizer”. Ele parecia perplexo. ”Não tem a simetria simples dos poliedros regulares, embora talvez possua uma simetria própria, superior... Acho que poderia ser uma inflorescência ou flor”.
”Poderia?”, insisti.
”Poderia”, ele confirmou.
”Cheire”, sugeri, e ele outra vez pareceu um tanto desconcertado, como se eu lhe pedisse para cheirar uma simetria superior. Mas cortesmente fez como pedi e levou a flor ao nariz. Então, de repente, ele ganhou vida.
”Lindo!”, exclamou. ”Uma rosa têmpora. Que aroma divino!” E começou a cantarolar ”Die Rose, die Lillie...”. Aparentemente, a realidade podia ser transmitida pelo olfato, não pela visão.
Fiz um último teste. Era um dia ainda frio, no começo da primavera, e eu deixara meu casaco e as luvas no sofá.
”O que é isto?”, perguntei, segurando uma luva.
”Posso examinar?”, ele pediu e, pegando-a, passou a examiná-la como fizera com as formas geométricas.
”Uma superfície contínua”, declarou por fim, ”envolta em si mesma. Parece ter” — hesitou — ”cinco bolsinhas protuberantes, por assim dizer”.
”Sim”, eu disse, com cautela. ”O senhor me fez uma descrição. Agora me diga o que é”.
”Algum tipo de recipiente”?
”Sim”, respondi. ”E o que ele guarda”?
”Guarda seus conteúdos!”, replicou o dr. R, rindo. ”Há muitas possibilidades. Poderia ser um porta-moedas, por exemplo, para cinco tamanhos de moedas. Poderia...”
Interrompi a torrente de idéias amalucadas. ”Não lhe parece familiar? Não acha que isso poderia conter, poderia servir em uma parte de seu corpo”?
Nenhuma luz de reconhecimento despontou em seu rosto.
Uma criança nunca teria a capacidade de falar em uma ”superfície contínua... envolta em si mesma”, mas qualquer criança, qualquer

NR.
Posteriormente, por acidente, ele a calçou, exclamando ”Meu Deus, é uma luva’” Isso lembra o paciente Lanuti, de Kurt Goldstem, que só conseguia reconhecer os objetos dinamicamente tentando usá-los. Fim NR

bebê reconheceria imediatamente uma luva como tal, como algo familiar, algo que dizia respeito à mão. O dr. P, não. Ele não via coisa alguma como familiar. Visualmente, ele estava perdido em um mundo de abstrações sem vida. De fato, ele não possuía um verdadeiro mundo visual, assim como não possuía um verdadeiro eu visual - Era capaz de falar sobre as coisas, mas não as via face a face. Hughlings Jackson, discorrendo sobre pacientes com afasia e lesões no hemisfério esquerdo, afirma que eles perderam o pensamento ”abstrato” e ”preposicional” — e os compara a cães (ou melhor, compara os cães aos pacientes com afasia). O dr. P, por sua vez, funcionava exatamente como uma máquina. Não só apresentando a mesma indiferença ao mundo visual existente em um computador, mas ainda mais espantoso — construindo o mundo como um computador o constrói, por meio de características essenciais e relações esquemáticas. O esquema podia ser identificado - como que por um ”kit de identidade” — sem que a realidade fosse percebida.
Os testes que eu fizera até então nada me revelaram sobre o mundo interior do dr. P. Seria possível que sua memória e imaginação visual ainda estivessem intactas? Pedi-lhe que se imaginasse entrando em uma de nossas praças pelo lado norte, que a atravessasse na imaginação ou memória e me dissesse as construções por que ele poderia passar enquanto andava. Ele mencionou as construções do lado direito, mas nenhuma do lado esquerdo. Pedi então que ele se imaginasse entrando na praça pelo lado sul. Novamente, ele mencionou os edifícios que ficavam do lado direito, embora fossem exatamente os que ele omitira antes. Os que ele ”vira” internamente antes não foram mencionados dessa vez; podia-se presumir que não eram mais ”vistos”. Estava evidente que seu problema como lado esquerdo, seus déficits no campo visual, eram tanto internos quanto externos, dividindo ao meio sua memória e imaginação visual.
E quanto à sua visualização interna em um nível superior? Pensando na intensidade quase alucinatória com que Tolstoi visualiza e anima seus personagens, fiz ao dr. P. perguntas sobre Ana Karenina. Ele conseguiu recordar incidentes sem dificuldade, sua compreensão da trama estava intacta, mas ele omitiu por completo características visuais, narrativas visuais e cenas. Lembrava-se das palavras dos personagens, mas não de seus rostos; e, embora quando solicitado ele pudesse citar as descrições visuais originais, com sua memória notável e quase textual, ficou patente que elas eram absolutamente vazias para ele, destituídas de realidade dos sentidos, da imaginação ou da emoção. Portanto, havia também uma agnosia interna*
Ficou claro, porém, que isso apenas ocorria com certos tipos de visualização. A visualização de rostos e cenas, de narrativa ou drama visual encontrava-se profundamente prejudicada, era quase ausente. Mas a visualização de esquemas estava preservada, e talvez mais aguçada. Assim, quando comecei com ele um jogo mental de xadrez, ele não teve dificuldade para visualizar o tabuleiro ou os movimentos — de fato, nenhuma dificuldade para me derrotar estrondosamente.
Luria afirmou que Zazetsky perdera por completo sua capacidade de jogar, mas que sua ”imaginação vivida” estava intacta. Zazetsky e o dr. P. viviam em mundos que eram reflexos no espelho um do outro. Mas a diferença mais triste entre eles estava em que Zazetsky, como explicou Luria, ”lutava para recuperar suas faculdades perdidas com a tenacidade indômita dos desgraçados”, ao passo que o dr. P. não estava lutando, não sabia o que fora perdido e, de fato, não sabia que alguma coisa se perdera. Mas o que era mais trágico, ou quem era mais desgraçado: o homem que sabia ou o que não sabia?
Quando o exame terminou, a Srª. P. nos chamou para a mesa, onde havia café e uma deliciosa profusão de pedaços de bolo. Faminto, cantarolando, o dr. P. atirou-se aos bolos. Com rapidez e fluência, sem pensar, melodiosamente, ele puxava os pratos para si e se servia deste e daquele numa grande torrente gorgolejante, uma canção comestível, até que, subitamente, houve uma interrupção: um alto e peremptório toc-toc-toc à porta. Sobressaltado, confuso, paralisado pela interrupção, o dr. P. parou de comer e quedou-se
NR
• Muitas vezes refleti a respeito das descrições visuais de Helen Keller, a despeito de toda a sua eloqüência, seriam elas também, de alguma forma, vazias? Ou será que, pela transferência de imagens do táctil para o visual ou, ainda mais extraordinariamente, do verbal e metafórico para o sensorial e visual, ela realmente conseguia a capacidade de ter imagens visuais, muito embora seu córtex visual jamais houvesse sido estimulado diretamente pelos olhos? Mas, no caso do dr P, era precisamente o córtex que fora danificado, o pré-requisito orgânico para todas as imagens pictóricas É interessante e típico o fato de ele não ter mais sonhos pictóricos — a ”mensagem” do sonho era transmitida em termos não visuais.
Fim NR
hirto, imóvel na cadeira, com uma perplexidade indiferente e cega no rosto. Ele enxergava, mas já não via a mesa; já não a percebia como uma mesa abarrotada de bolos. A esposa pôs café em sua xícara: o cheiro excitou-lhe o olfato e o trouxe de volta à realidade. A melodia do comer recomeçou.
Pensei comigo: como é que ele faz as coisas? O que acontece quando ele está se vestindo, lavando as mãos, tomando banho? Segui sua esposa até a cozinha e perguntei como, por exemplo, ele conseguia vestir-se. ”Do mesmo modo como ele come”, ela explicou. ”Eu deixo fora suas roupas de costume, em todos os lugares de costume, e ele se veste sem dificuldade, cantando para si mesmo. Faz tudo cantando para si mesmo. Mas, se for interrompido, ele perde o fio da meada, pára completamente, não reconhece suas roupas — nem seu corpo. Ele canta o tempo todo — canções de comer, canções de vestir, canções de banho, de tudo. Não consegue fazer uma coisa se não a transformar em uma canção.”
Enquanto conversávamos, minha atenção foi atraída pelos quadros nas paredes.
”Sim”, disse a Srª. P, ”ele era um pintor talentoso além de cantor. A faculdade expunha seus quadros todo ano”.
Examinei-os, curioso — estavam em ordem cronológica. Todas as suas obras iniciais eram naturalistas e realistas, vividas em espírito e atmosfera, mas finamente detalhadas e concretas. Anos depois, tornaram-se menos vividas menos concretas, menos realistas e naturalistas e muito mais abstratas, até mesmo geométricas e cubistas. Por fim, nas últimas pinturas, as telas eram absurdas, ou absurdas para mim: meras linhas caóticas e manchas de tinta. Comentei isso com a Srª. P.
”Ora, vocês médicos são uns filisteus!”, ela exclamou. ”Não consegue ver o desenvolvimento artístico — como ele renunciou ao realismo de sua juventude e avançou para a arte abstrata, não representativa”?
”Não, não é isso”, eu disse a mim mesmo (mas evitei mencioná-lo à pobre Srª. P.). Ele de fato passara do realismo à não-representação e ao abstrato, porém não se tratava do avanço do artista, e sim da patologia — avanço em direção à profunda agnosia visual, na qual todas as capacidades de representação e imaginação, todo o senso do concreto, todo o senso da realidade estavam sendo destruídos. Aquela parede de quadros era uma trágica exposição patológica, que pertencia à neurologia e não à arte.
E, contudo, refleti, ela não estaria em parte correta? Pois com freqüência existe uma luta, e, por vezes, o que é até mais interessante, uma combinação entre os poderes da patologia e os da criação. Talvez, no período cubista do dr. P, tenha havido o desenvolvimento artístico tanto quanto o patológico, combinando-se para engendrar uma forma original; pois, à medida que ele foi perdendo o concreto, talvez também tivesse ganho o abstrato, desenvolvendo uma sensibilidade maior para todos os elementos estruturais de linhas, limites, contornos — um poder quase como o de Picasso para ver, e igualmente representar, as organizações abstratas embutidas, e normalmente perdidas, no concreto. Embora eu receasse que nas últimas pinturas houvesse apenas casos de agnosia.
Voltamos à grande sala de música, como Bõsendorfer no centro e o dr. P. cantarolando a última torta.
”Bem, doutor Sacks”, disse ele, ”o senhor me julga um caso interessante, posso perceber. Pode dizer-me o que vê de errado, fazer recomendações”?
”Não posso dizer o que vejo de errado”, respondi, ”mas lhe direi o que a meu ver está certo. O senhor é um músico magnífico, e a música é sua vida. O que eu prescreveria em um caso como o seu é uma vida que consista inteiramente em música. A música tem sido o centro, agora faça dela toda a sua vida”.
Isso foi há quatro anos. Nunca mais o vi, mas com freqüência perguntei a mim mesmo como ele percebia o mundo, considerando aquela estranha perda da imagem, da visualidade e a perfeita preservação de uma grande musicalidade. Creio que a música, para ele, tomara o lugar da imagem. Ele não possuía imagem corporal, e sim música corporal; eis por que ele era capaz de mover-se e agir com fluência, mas parava todo confuso se a ”música interior” fosse interrompida. E o mesmo acontecia com o exterior, como mundo...*
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• Por exemplo, como depois me contou sua esposa, embora ele não conseguisse reconhecer seus alunos se eles se mantivessem sentados e quietos, se fossem meras ”imagens”, era capaz de reconhecê-los subitamente se eles se movessem ”Aquele é Karl”, bradava ”Conheço seus movimentos, sua música corporal”.
Em O mundo como vontade e representação, Schopenhauer afirma que a música é ”vontade pura”. Como ele se teria fascinado pelo dr. P, um homem que perdera por completo o mundo como representação mas o preservava inteiramente como música ou vontade!
E isso, misericordiosamente, manteve-se até o fim—pois, apesar do avanço gradual de sua doença (um grande tumor ou processo degenerativo nas partes visuais do cérebro), o dr. P. viveu e lecionou música até os últimos dias de sua vida.

PÓS-ESCRITO
Como explicar a singular incapacidade do dr. P. para interpretar, para avaliar uma luva como uma luva? Manifestamente neste caso ele não conseguia fazer um julgamento cognitivo, embora fosse fértil na produção de hipóteses cognitivas. Um julgamento é intuitivo, pessoal, abrangente e concreto — nós ”vemos” como as coisas são em relação umas às outras e a si mesmas. Era precisamente essa disposição, esse estabelecimento de relações que faltava ao dr. P. (embora sua capacidade de julgamento, em todas as outras esferas, fosse imediata e normal). Seria isso devido à ausência de informações visuais ou a um processamento deficiente das informações visuais? (Esta teria sido a explicação dada por uma neurologia clássica, esquemática.) Ou haveria algo errado na atitude do dr. P., de modo que ele não conseguia relacionar consigo mesmo o que via?
Essas explicações, ou modos de explicação, não são mutuamente excludentes — estando em modos diferentes, elas podem coexistir e ser ambas verdadeiras. E isso é reconhecido, implícita ou explicitamente, pela neurologia clássica: implicitamente por Macrae, quando ele julga inadequada a explicação dos esquemas deficientes, ou processamento e integração visual deficientes; explicitamente por Goldstein, quando fala em ”atitude abstrata”. Mas a atitude abstrata, que permite a ”categorização”, também não se aplica ao caso do dr. P. e, talvez, ao conceito de ”julgamento” de um modo geral. Pois o dr. P. tinha uma atitude abstrata — de fato, nada além dela. E era exatamente essa sua absurda abstração de atitudes — absurda porque não temperada por qualquer outra coisa que o tornava incapaz de perceber a identidade ou as especificidades, que o tornava incapaz de julgamento.
Curiosamente, a neurologia e a psicologia, embora tratem de tudo o mais, quase nunca versam sobre o ”julgamento”, a capacidade de discernir. No entanto, é precisamente a derrocada da capacidade de discernir (seja em esferas específicas, como no caso do dr. P., seja de um modo mais geral, como no caso de pacientes com a psicose de Korsakov ou com síndromes do lobo frontal — ver capítulos 12 e 13 deste livro) que constitui a essência de numerosos distúrbios neuropsicológicos. A capacidade de discernir e a identidade podem ser prejudicadas — mas a neuropsicologia não se ocupa delas.
E, no entanto, seja no sentido filosófico (o de Kant) ou no sentido empírico e evolucionista, o discernimento é a faculdade mais importante que possuímos. Um animal, ou um homem pode sair-se bem sem ”atitude abstrata”, mas perecerá sem demora se privado do discernimento. Esta deve ser a primeira faculdade da vida superior ou mente, mas é menosprezada, ou mal interpretada, pela neurologia clássica (computista). E se tentarmos descobrir como pode dar-se um absurdo desses, encontramos a resposta nas suposições, ou na evolução, da própria neurologia. Pois a neurologia clássica (como a física clássica) sempre foi mecânica — das analogias mecânicas de Hughlings Jackson às analogias atuais com os computadores.
Naturalmente, o cérebro é uma máquina e um computador — tudo o que afirma a neurologia clássica é correto. Mas nossos processos mentais, que constituem nosso ser e vida, não são apenas abstratos e mecânicos, mas também pessoais, e nisto envolvem não só classificar e categorizar, mas também continuamente julgar e sentir. Se estes dois últimos estão ausentes, nos tornamos semelhantes aos computadores, como era o dr. P. E, analogamente, se apagamos o sentimento e o discernimento, o pessoal, das ciências cognitivas, nós as reduzimos a algo tão defectivo quanto o dr. P. — e reduzimos igualmente nossa apreensão do concreto e real.
Por uma espécie de analogia cômica e pavorosa, a neurologia e a psicologia cognitivas atuais lembram nada mais nada menos que o pobre dr. P.! Necessitamos do concreto e do real, como ele necessitava; e não conseguimos perceber isso, como ele também não percebia. Nossas ciências cognitivas estão, elas próprias, sofrendo de uma agnosia essencialmente semelhante à do dr. P. Este, portanto, pode servir como um aviso e uma parábola do que acontece com uma ciência que se esquiva do apreciativo, do específico, do pessoal e se torna inteiramente abstrata e computista.
Sempre lamentei muito que circunstâncias fora de meu controle não me tenham permitido continuar a acompanhar o caso do dr. P, tanto no tipo de observações e investigações mencionadas como na apuração da verdadeira patologia da doença.
Existe sempre o receio de que um caso seja ”único”, especialmente quando apresenta características tão extraordinárias quanto as do dr. P. Por isso, foi com grande interesse e satisfação, e não sem alívio, que descobri, por mero acaso — folheando o periódico Brain de 1956 —, uma descrição pormenorizada de um caso quase comicamente semelhante (de fato, idêntico) em termos neuropsicológicos e fenomenológicos, embora a patologia básica (uma lesão aguda na cabeça) e todas as circunstâncias pessoais fossem totalmente diversas. Os autores mencionam seu caso como ”único na história documentada deste distúrbio” e evidentemente ficaram, como eu, espantados com suas próprias descobertas.* O leitor interessado pode consultar o artigo original, Macrae e Trolle [1956], do qual acrescento aqui uma breve paráfrase, com citações do original.
Seu paciente, um homem de 32 anos, depois de um grave acidente de automóvel que o manteve inconsciente por três semanas, ”[...] queixava-se, exclusivamente, da incapacidade de reconhecer rostos,

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* Só depois de ter concluído este livro, descobri que na verdade existe uma vasta literatura sobre agnosia visual em geral e prosopagnosia em particular Recentemente, em especial, tive o grande prazer de conhecer o dr. Andrew Kertesz, que publicou alguns estudos pormenorizados sobre pacientes com agnosias desse tipo (ver, por exemplo, seu artigo sobre agnosia visual Kertesz, 1979) O dr Kertesz falou-me de um caso de que teve notícia um fazendeiro que manifestou prosopagnosia e, em conseqüência, não pôde mais distinguir (as feições de) suas vacas, outro caso que me descreveu foi o de um assistente do Museu de História Natural que confundiu seu próprio reflexo como diorama de um macaco Assim como ocorria com o dr P e como paciente de Macrae e Trolle, é especialmente o animado que o paciente percebe de maneira tão absurda. Os estudos mais importantes sobre agnosias desse tipo e sobre processamento visual em geral estão sendo empreendidos por A R e H. Damasio (ver artigo em Mesulam [1985], pp 259-88, ou P 95 deste livro).
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inclusive os da esposa e filhos”. Nenhum rosto lhe era ”familiar”, mas ele conseguia identificar os de três colegas de trabalho: um deles tinha um tique de piscar um olho, outro, uma grande verruga na bochecha, e o terceiro ”porque era tão alto e magro que ninguém se parecia com ele”. Cada um desses três homens, afirmam Macrae e Trolle, eram ”reconhecidos unicamente pela característica singular que os destacava”. Em geral (como o dr.P), esse paciente só reconhecia os parentes pela voz.
Ele tinha dificuldade até para reconhecer a si mesmo no espelho, como descrevem em detalhes Macrae e Trolle: ”No início da fase de convalescença, ele com freqüência, em especial quando se barbeava, ficava em dúvida sobre se o rosto que o fitava era o seu próprio e, embora soubesse que fisicamente não podia ser nenhum outro, em várias ocasiões ele fez caretas ou botou a língua para fora, ’só para ter certeza’. Estudando atentamente seu rosto no espelho, ele pouco a pouco passou a reconhecê-lo, mas não ’de relance’, como antes — ele tomava por base os cabelos e o contorno facial, além de duas pequenas verrugas na face esquerda”.
De um modo geral, ele não conseguia reconhecer os objetos ”de relance”; precisava procurar uma ou duas características e fazer suposições com base nelas; às vezes, as suposições eram absurdamente equivocadas. Em particular, observaram os autores, ele tinha dificuldade com o que era animado.
Por outro lado, objetos esquemáticos simples — tesouras, relógio, chave etc. — não representavam dificuldades. Macrae e Trolle observam ainda que ”sua memória topográfica era estranha: havia o aparente paradoxo de que ele era capaz de encontrar o caminho de casa para o hospital e localizar-se nas proximidades deste, mas mesmo assim não conseguia saber o nome das ruas do caminho percorrido [diferentemente do dr. P, este paciente também apresentava uma certa afasia], nem parecia visualizar a topografia”.
Também se evidenciou que suas recordações visuais de pessoas, mesmo as de muito tempo antes do acidente, foram seriamente prejudicadas: havia a lembrança da conduta, ou talvez de um maneirismo, mas não da aparência visual ou rosto. Analogamente, como se depreendeu quando ele foi minuciosamente questionado, ele não tinha mais imagens visuais em seus sonhos. Assim, como no caso do dr. P, não apenas a percepção visual, mas a imaginação e a memória visual, as capacidades fundamentais de representação visual foram essencialmente danificadas neste paciente — pelo menos aquelas capacidades relacionadas ao pessoal, ao familiar, ao concreto.
Uma cômica observação final: enquanto o dr. P. confundiu sua mulher com um chapéu, o paciente de Macrae, também incapaz de reconhecer a esposa, precisava que ela se identificasse com um marcador individual, que, neste caso, era ”[...] um artigo bem destacado de vestuário, como, por exemplo, um grande chapéu”.

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